29.3.19
Poema para Lídia
seria melhor que os pássaros e as flores
tivessem quebrado a voz e a cor
e que a cidade se tivesse afundado
no tempo, quando tu, Lídia,
num rio seco e sem corrente
te prendeste à mão que não se estende
seria melhor que não tivesses ficado
"pagã triste" (1) entre as flores
com o vazio no regaço
em vez do amor - para todo o sempre
presa num poema que te imola -
quando no teu peito a vida implora
seria esse o momento da espada
o lugar da revolta e do despejo
de um amor tão displiciente
e tão contido ~ que nada mais é do que
a morte em vida, tão cedo, e a renúncia
que faz de ti, Lídia, esse triste objeto
enlaçado e desenlaçado
na paixão a medo, à beira de um rio
que leva à morte a vida, tão cedo!
ah, Lídia, não te quero assim, passivamente,
prefiro imaginar que foste forte o suficiente
e não ficaste pagã triste, à espera da mão
que te enlaçasse novamente
porque a paixão não é um rio que se contém
e se alguém a contém é porque não a sente
(1) Ricardo Reis "Vem sentar-te, Lídia, à beira do rio"
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Recentemente...
Assersões
Uma onda é a resposta a outra, como um eco é a resposta a outro A atração, dois ecos que se encontram e se unem no mesmo som E o amor? Ah, o...
Sem comentários:
Enviar um comentário
Deixa aqui um lírio