Escrevo sem nome o nome que no peito escrito tinha
Aos montes ensinando e às ervinhas que o melhor que guardo de ti era o momento em que vinhas
De lírios aqui se fala. Delírios e dores, areia das almas.
Escrevo sem nome o nome que no peito escrito tinha
Aos montes ensinando e às ervinhas que o melhor que guardo de ti era o momento em que vinhas
Dirá alguém que a racionalidade rói por dentro a região do amor
E com razão o diz.
Já ando a escrever cartas de amor há tanto tempo que apenas a razão me assiste este mover dos dedos no teclado
Um ciclo teimoso de mim para ti
Onde estiveres poderás vir beber a tua sede de emoção
Mas alguém te dirá que o discurso amoroso é fruto de estranhezas climáticas
Alheias ao coração
Cometo o impossível quando acometo o teu ser (tão fluido) com jogos de amor, tu que és como um cometa que varre o universo e se assinala aqui e ali, sempre em rota de nenhuma colisão, a cometer a vida como quem comete uma fuga
O amor joga-se ao ar, espalha-se até que o apanhe quem o quer e cometa a maior loucura de todas, a de o devolver como um boomerang de estrelas, que seja certeiro como a seta que o semeou e fez florir
Cometo a insana poesia do amor e tu cometes comigo o crime maior de deixar ser, como se a vida estivesse agora a nascer
Como me atrais, ontem e hoje, ainda agora?
Como me atrais tanto se tanto me trais?
E se me trais, vais ver a quem mais atrais
Noutra existência noutra terra, noutra hora
E se aí vais, alheio a meus ais, diz-me, porque me atrais?
São trocadilhos de quem trai a quem atrai, ou de quem atrai quem trai?
Perguntas estas tais, podes continuar a trair quem atrais que eu continuo a atrair quem não vem mais
Efémero o olhar que balanço no universo, de estrela em estrela
A terra, escaldante, a brisa da noite a mexer-me no cabelo e eu deitada a sentir esse alento quente das lajes
Foi só um momento
Para eu ficar presa à lua, uma candeia de brilho, não foi preciso mais
Realizei que ela vai continuar onde está, depois de mim
Confortou-me pensar que deixo a lua aos meus herdeiros, conforme lhes deixo as lajes quentes onde pouso agora
O mundo pode mudar, mas não as estrelas nem as lajes do meu quintal
Achei que isso me fará partir feliz
Creio nas sagradas chamas da paz, flâmulas de contemplação, chamas de puro amor
Creio que o amor cresce como o trigo e a vida é pontualmente viçosa em cada estio
Creio que a morte é como as cinzas do lumeiro, sempre ardeu e arderá, enquanto houver braseiro
Creio em mim, como admiro as ervas que rompem o betão
Creio em ti como nas horas avançadas da noite, que crescem fundas na solidão
Creio nela sobretudo, nessa oração silenciosa de quem se reúne consigo e sozinho limpa devagar o que resta do seu mundo
De resto, creio em Deus e Jesus Cristo, Os que carregam a cruz de cada um, o gesto maior e mais profundo
Que eu recuso, sou só, carrego a minha luz e bebo do meu cálice a raíz do amor. Se amor vier, bebemo-lo juntos. Creio qie sim
Alimento a fome com pouca cousa. Basta-me ver o teu olhar, ouvir a tua voz e imaginar que a tua fala se projeta paralelamente ao meu ouvido, sem desvios, sem arcos em ogiva.
Na casa, a permanência é intermitente, como o farol do Bugio. Quando estou, escuto as ondas e espero por ti. Quando não estou, as ondas murmuram o teu nome. Mas tu perdeste a casa, como perdeste o brilho do olhar.
Grita por mim mais vezes, talvez te ouça, em vez de apenas ouvires as ondas, a voz seca das rosas.
Manda dizer um pregão pela aldeia, a anunciar que perdeste o caminho do meu ser, enquanto eu ando descalça pela vida, a jurar que eras tu, no outro dia, na esquina da tarde, a escutar, a olhar, a ver.
Eu sei que permaneces em lugares onde o hemisfério oposto expõe a sua belíssima flora constelar
Nunca vi os céus desse hemisfério, onde tu vês um, vejo eu o outro, nunca nos conseguimos morar
Mas, meu amor, repara, se o universo se comprimisse, haveríamos de nos fundir num só fogo, um ponto celeste
Haveríamos de ser unos, quando agora somos apenas únicos, dois únicos seres na multidão, esperando rasar a mão ou o olhar noutro ser único
Uma palavra com outra, adjetivo e nome, o verbo que teria o complemento em falta, Um admirável amor que assim se perde, Uma exata simetria que assim se busca - palavras que nos vêm frequentemente à boca
Tão inúteis como loucas
Estavas quase a chegar, meu amor, estiveste sempre a vir, vinhas logo, virias certamente muito prestes, mas não vieste
Sempre fui eu a ir, a correr comarcas e ribeiros, a passar pontes de palavras longas para passares sobre a sua trama escarlate
Flores ficaram em lugares escondidos, os caules envoltos em papelinhos pueris, as coisas que te dizia e vinham da minha pobre arte
Como aquela fonte (talvez cascata) que ainda guarda o meu perfil em espera, com o sol a acobrear-me os cabelos e tu sem vires, e tu sem veres
Os momentos passam, nós partimos, mas quem fomos ainda lá está
E tu sem vires e eu sempre a ir para cada vez mais longe das emoções
Que já não vêm, que tu não vens e eu quase não vou, porque quem fui é a sombra que cá está. E já chegou
a todos os seres da madrugada, tanto os que sonham o dia, como os que embalam a noite, os insomnes, os doidos, os loucos, os bêbados, os operários que apanham por força maior o primeiro comboio da madrugada,
deixo o recado: somos unos na inquietude e há poesia bastante nos nossos atos, nos pensamentos que passam e voltam, aflitos ou encantados
estamos a meio da noite, à espera de um comboio que já passou ou que virá atrasado
mesmo assim alcançamos um lugar na transcendência do tempo, paramos, quem somos, de onde viemos, para que abismo caminhamos, onde acaba o imenso céu estrelado?
a poesia é o canto do primeiro pássaro que virá, sem falta, pontuar-nos os medos
Dizem que o amor vai e vem, volta e parte
Talvez
Mas o que ninguém ainda disse é que o amor permanece
Quando para tanto há engenho e arte
Quando para tanto o corpo de amor se veste
Não sei que diga nestes dias especiais. Não há dias felizes com marcação prévia como no cabeleireiro. Que sejam felizes os apaixonados. Os que creem ser queridos e amados.
Eu bebi ilusão a mais, quis demais, amei demais. Agora tenho em mim a harmonia universal, seja lá isso o que for.
É cedo para me esperares, tarde para me desespetares, nada me arrasta pelas correntes, nenhuma água me leva, nem eu vou.
Desapego-me do mundo sem pudor. Estou bem onde estive. Nenhuma ausência levita em meu redor.
Depurei o sangue de qualquer licor e destilo a emoção serena de ouvir dizer que tive nas minhas mãos esta espécie de amor.
Só perto, mais perto, só muito perto o meu coração ouve o teu, nesta forma adérmica de amor.
Não digas nada. Escuta como é feroz este som da tempestade. Não perturbes o vendaval com o teu medo. Deixa-o largar a sua fúria até morrer. É o estertor dos tempos a lembrar ao homem o seu mísero poder. Como numa discussão de amantes, é preciso abater tudo, rasar, limar até ao declínio da voz.
Mas não digas nada. Nem tremas na tua caverna de betão. Às vezes, estes vendavais tremendos abanam janelas, torres, edifícios, só rugem, não dizem nada.
Outras trazem a mensagem prodigiosa dos deuses, um sinal de mudança que livra as pobres almas amordaçadas, limpa corações, lava rancores. A ironia suprema de ser num clímax de dor e caos que se mudam destinos.
Cuidado, já pode ter mudado o teu.
Faço um café na velha cafeteira que faz subir a água para se juntar ao café. Enquanto espero penso na onda a molhar a areia, penso no vento a varejar a chuva, penso na emoção a crescer, penso na afluência do sangue ao meu rosto, penso em mim quando penso em ti ou quando os teus olhos se fundeiam nos meus. O som da cafeteira explode e rejubila.
Café pronto. Bebes tu ou bebo eu?
A emoção abriu a porta, entrou e ficou brevemente atenta.
Uma sala sóbria e nela apenas uma cadeira e um homem.
Compunham momentos idos numa pauta muda. Choro ou riso eram as notas. Silêncios longos.
A emoção soube que era preciso preencher aquela vida. E ali ficou, enquanto pôde.
Quando foi que olhaste a penugem louea que me ornamenta os lábios e me afastaste o cabelo dos olhos, para me veres melhor?
Seria, talvez, num sonho de anjos, num daqueles momentos que só veneras depois de passarem. Na altura não são ainda momentos.
O que custa não é não viver, é viver sem ter vivido. Meu amor, se tu me afastasses o cabelo só para me veres melhor, não me desenhavas só um sorriso, mas toda a razão da minha existência.
Se Natércia eu fora e tu poeta que és me desejasses, virias com olhos febris, espada e a pena aparelhadas, para me abrires caminhos, onde pudesse rir
Mas infanta não sou, nem tenho anagramas do poeta que a amou, sou a oculta face de um acaso
O teu olhar distintamente negro estará por aí sorvendo lábios, sorvendo vida e eu quero ser Natércia de ninguém, olvidada de todos, como penedo no fosso da lua
Escolho ir, tenho de ir, já não há nada para ficar
Não mudámos o curso de nenhum rio, nem secar o vimos secar. No entanto estivemos sempre de mãos dadas desatadamente cegas à beira desse mesmo rio.
Não bebemos a sua água, por isso o nosso esquecimento é episódico.
Como os deuses, já somos antigos na arte de amar meros mortais, produzindo vagas de ocasional desejo.
Perdemos hábitos como os velhos perdem dentes. Por exemplo, esperei-te tantas noites na tua capa homérica, sem conseguir encerrar a noite, inconclusa esta por falta da palavra, tantas vezes te quis sentir, tanto quis ouvir o discurso lírico da noite, que acabei por me fazer eu a que tarda, a que tardou por ser demasiado imaterial o improvável abraço, a incerta intimidade. Mas sabes que fazes parte do meu plano de paz. Para a morte, ainda não, mas para uma pequena vida. E hoje, ainda por cima, abusei do café e da saudade.
Envelhecer, uma operação quântica que Afeta e pele
Os músculos existências
Amar é uma operação alheia a qualquer processo temporal e afeta apenas
O músculo do coração
E bate sempre na sua contração de sangue, sempre vivo
Amar e envelhecer, é lixado
Até ao fim, em caminhos paralelos inconvergentes, porém
Tangenciais
Emocionalmente ocasionais
Fala-me com o teu sangue, nenhuma batida emocional será demais
A existência quem disse que se dissolva todos os dias na mesma velha taça dos mesmos dias? Um qualquer existencialista privado do sonho, uma aparição feroz, uma verdade. Temos pena.
Dói saber que tudo é intangível para lá do nevoeiro chuvoso. Tudo. Até para lá do Sol. Da Lua enganosa. Buscamos o sentido da vida através de velhos reposteiros e a vida é uma renovação exata da dor.
É verdade, sim. A viagem faz-se lenta, o mundo encolhe, as vozes suspendem-se no pó.
Velhos amores em napperons feitos de laçadas do pensamento e da saudade. Velhos poemas de um fervor salino.
É assim que deixamos de esperar que subitamente o amor venha ombrear connosco, tal como connosco vem ter o sol posto.
Tudo é demasiado intangível meu amigo. Existimos para imaginar sem viver e vivemos do que imaginamos. Uma maré cheia vazia de sentido. Temos pena.
Cheira ao fumo das lareiras, os cães não ladram trôpegos de frio.
Esta noite recolho o coração nas mantas, por falta do teu corpo, para dividirmos o frio e o chá por dois, para levarmos adiante a mesma insónia, o riso igual.
Não é verdade que partiste. Dizem-me que sim, mas eu sei que é tudo inveja, nunca viram, nem sonharam, um viver assim.
Perco-me nos dias e penso sempre que amanhã é véspera de alguma coisa. Talvez espere um pouco de apaziguamento, assim como um abraço silencioso que funde o frio e fende o mundo.
Mais nada me interessa, sabes? Tenho a pele couraçada desta ascese que nunca quis. Apaziguamento, muito, muito íntimo apaziguamento, a força que nasce de dois é algo por que se pode viver.
Mas ficamos aqui cada um ao frio, cada um de face muda, a contar o peso dos dias. E não há regresso. Caminhamos tristes e pálidos ao inverso, sempre ao inverso e é inverno as noites são tristes assim.
Uma cela fechada onde cresço com o que me restou
Um terrasso sobre o mundo onde pinto as dores da alegria
Palavras assombradas, a sair de uns dedos desabitados (porquê hoje?)
Porque resistes e descobres que nem tudo nos riscou o dia
Porque uma vida tem a duração exata da primeira à última resenha de poesia
E as contas são feitas com a emoção da primeira vista, do primeiro olhar que nos refletia
E, assim, não há nada em mim que te resista!
Como estás hoje no teu mundo? Moras a terra justa, drenas o tempo em barro seco, ou enleias memórias num novelo?
A que te sabe o dia, um morno domingo algo outonal, onde a esperança inverna?
Que salvação temos nesta incúria do tempo? Nada nos salva, meu amor. Só o teu nome, como um sopro na nuca:
ainda não chegou e já é coisa difusa.
Mas a tua sombra, sabes bem, onde estiver, é única.
Não consigo viver mais dias. Já são tantos e tão inúteis. Preparo lentamente a minha fuga, a maior de sempre. Será rápida e ninguém dará por mim, já que, presente ou ausente, ninguém me pressente. Falta aqui uma palavra. Uma só. Um só lírio. Nunca se ouve uma voz. É uma peregrinação que me assusta. Como se, na verdade, as minhas palavras viessem de um túmulo e esse túmulo fosse o meu. Pois bem. Que assim seja.
Na vida, o único sentido é o amor, o mais fértil dos sentidos é mesmo o amor, desculpa, passei toda a minha vida a dizer-te que só amando morremos melhor, (já que viver de amor é poesia), e agora já não tenho a certeza de sentir que sim, que ver o mesmo pôr de sol de mãos juntas, beber palavras pelos olhos e lacrimejar de emoção na mesma dimensão são as coisas que contam e que contamos, com o rosário de contas da narrativa que nos conta. Tenho tentado dizer-te que o vazio só está onde não está o outro. E se estiver o outro e houver vazio, então, esse não é quem amas. Não sei que mais te diga. Tens-me mas não me tens e eu não tenho nada. É uma deriva que leva à única conclusão possível. Nunca poderemos absorver mais do que a essência e essa é a sede maior da existência.
Mas entre perder o que és ou viver o que sou - passou toda uma vida.
Enfim, depois de tudo, alguém pisará as minhas palavras e cortará as minhas emoções, como caules secos, mas que não seja ninguém mais do que tu. E que te preencha a face do desejo.
Soubesses tu como te anseio, não como verbo declinável mas como o verbo do corpo
Virias, sem luto, sem estrias no peito, nada. Vinhas e pronto.
Sim, a solidão é minha. Mas não a quero. Obrigada, adeus. Que venha a próxima emoção. Ou nenhuma.
Escrevo-te com estas palavras lisas, depois de passadas pelas correntes do tempo que tivemos. Meu amor, digo, e sei que não tenho cores que cheguem para te pintar o olhar com alegria bastante. Este livro é o caminho todo dos meus dias ao caminhar por ti, para ti, com a rara luz dos meus olhos. Tive as mãos sempre nos bolsos. Tirei-as apenas para te as estender. Meu amor, digo ainda. Sabes que, enquanto vivemos cada novo momento, já nos perdemos, nós que nunca nos achámos, a não ser nas palavras, como trolhas embriagados ao regressar a casa.
A minha (casa) chama-se agora nostalgia. Refúgio de tudo, direção única, um só sentido, apenas o de viver. A nossa (casa) flutua na memória dos anjos, únicos seres capazes da nossa perfeição. Falo da perfeição deste longo evento de busca e fuga, de encontro e renúncia. Fomos reclusos de uma busca de intimidade que nos tornou um só no desejo. Que importaram os outros?
Com o tempo, as pessoas começam a esquecer-se de mim e eu agradeço o lapso. Gosto de envelhecer com o esplendor do esquecimento. Mantenho as mãos nos bolsos, porque não tenho a quem as dar, mas sempre pronta a estendê-las para a loucura deste frio com que me aqueces em raros e episódicos momentos. Eu sou sempre eu. Lamento a incapacidade de fuga. Fui coerente comigo e contigo. Foste tu. E ninguém se compara a ti, nesta interiorização que cresce com a idade, meu amor, ninguém, ninguém. Não estou a morrer contigo, estou a viver comigo para te estender as minhas mãos, se algum dia as quiseres. Tenho o tempo que o tempo me dá. E o que o tempo me deu foste tu.
I may cry in silence, yes, I might even dream of you sometimes
Nevertheless, nothing else is quite the same
It's true I cannot stand loneliness by my side, instead of your sweet presence
Nevertheless, it seems my destiny is this permanent inner liveliness
A fake joi, fake smile, soft manners for dogs and wolves running behind other people lifes
Nevertheless without you I'm alone and no poetry, no deep words, no strong feelings are to arise far from your sweet skin
I might be alone, yes. Did I choose this mood? Nevertheless, we came a long way to stand here
Isn't it time to stay together, as life is the only flood?
Meu querido, digo eu num fio de voz. Meu querido, doce vocativo,
Na casa morna, no canto estreito é aí que eu digo
Que as estrelas se desliguem como pirilampos cegos
Se eu não te chamar ainda, meu querido, meu terno vocativo
E que a casa não se abra ao som da minha voz se eu não te digo e repito
Meu querido, leve poeira luminosa num raio de sol, tua voz aviva a cera com que o digo
Meu querido, é o que eu sinto e tu reclinas a voz. Era sábado ou domingo e eu acordava no corpo da casa, tua ambarina voz, meu querido, rasava-me o ouvido
Agora digo com muita e depois nenhuma convicção, cada vez menos vivo, a voz quebrada no soalho, quase um grito
É assim que eu digo e recito uma lauda de improviso
Que as flores todas se turvem se eu não te chamar ainda, no vão da casa, meu querido
Como um eco que se repete, meu querido, eu digo o doce vocativo, e digo, digo, digo
E o teu nome ido, ido, na casa onde um dia a alta voz dos teus passos se perdeu no mundo
Alguns poemas são virtuosos. Valem ouro. Outros cheios de pena, voam pouco. Outros ainda são tontos e bailam muito.
Mas os meus preferidos são lachas de partir entre mar e vento.
Daqueles que sentes como se estovesses lá, no equilíbrio mais improvável, aos saltos loucos e imprudentes.
Há uma ave que não se cala, mesmo aqui ao lado. E canta com o propósito único de saudar o dia.
Quero que se cale.
Que o meu choro seja audível pelas raízes fundas e pelos campos ao redor.
Quando a dor é real, não há poesia bastante para calar o canto de uma ave. Muito menos de uma mulher.
A dor de todas as guerras
A razão de cada povo, a guerra santa que foi, a guerra cega que é
A guerra ázima de ambição
A guerra oleosa do medo
A odiosa guerra da vingança
A prepotência nas vozes que se ouvem, inferno a céu aberto
Fechá-lo urge
Os lobos, em segredo, nas montanhas, rugem
Cega, explosiva, a guerra lá longe, arde-me dentro
Levai, Senhor os homens de armas, lavai, Senhor, o clima dos seus olhos
As feridas na carne dos teus filhos, Senhor, e os teus filhos são todos
Levanta alto a tua mão e volta atrás ao paraíso
Antes do homem querer tanto saber tudo, querer tanto ter tudo e pensar que é tudo
Esta noite, poderias prender as minhas mãos nas tuas para lembrarmos tudo que se derramou de nós, ao enchermos o tempo de inútil semântica
Porque, ouve, eu não sou esse ser etéreo que sai da campa
Nem este chão rasa as nuvens de onde me vês, de onde vens
Por isso, talvez, digo eu, esta noite poderias ter forma e enformares o silêncio com essa planura leve da tua voz
Já que eu sou etérea como um voo de mosca que se alimenta da solidão
Quando o meu corpo é ainda o corpo do amor e a pele informa a idade com que me deito
Sou também matéria atenta dos vermes, mas antes ainda queria olhar o mar sem versos nem vidros
Ver o sol sem rimas ardentes, para vermos juntos o verdadeiro reflexo da dor e depois talvez um "para sempre"
E então, diz-me, com esta rosa de vida que te dou, arrancada aos cardos mais secos do deserto, a morte, como a sentes?
É melhor deixarmos de olhar para trás. Já vai longa a despedida e o poema já perdeu a vela, a luz e a vida
Se te encontrasse de novo, eu sei o que faria. Um reboot total no tempo, uma pele híbrida, um código de amor intenso
Uma inteligência dos sentidos que fosse do mais puro artifício e nos desse a loucura dos sonhos vivos, a peleja dos mais doces vícios
Meu amor, cai a neve, cai o tempo, vive a luz azul da floresta.
Tudo cai, quando algo maior que nós se levanta.
A suavidade de um gesto lindo e uma paixão camoniana fica, permanece, resulta. E é tanta!
A maior suavidade que me dá a vida é esta luz que ora se apresenta.
Porque te busco agora e sempre e mais e mais me encantas?
Sim, foi uma longa travessia. O deserto encerra aqui a solidão. Quem, onde?
Ninguém. Aves voam sem mim que nunca voei com companhia.
Não é volta. É revolta. Devolução.
Já nada importa. Nunca sequer provei da vida o melhor mel. Sabor a nada em fim da festa.
Porque hoje, nem comigo consigo contentar-me e a única voz que tenho é esta.
Nos teus olhos o brilho que nunca vi nos meus. Imagino que foi tudo um sonho longo que só sonhei eu
E lanço-te ao rio numa folha forte na jovem corrente da vida
E, assim, deposito flores na tua sombra, doravante despedida ao vento
E fico firme em meu saber: no amor, o brilho acende só quanto se sente
Tu levitas leve e elevas com leveza a nuvem que o vento leva
Tu és um contemplativo momento e sabes que a contemplação cria o desejo
E eu nem sequer consigo ver que levitas leve
Nem que elevas com leveza a nuvem
Tão pouco sei que o vento a leva
Provavelmente, não vejo a nuvem
Nem o teu contemplativo momento
Mas penso em ti por dentro e sei que só eu sei como levitas leve na minha nuvem de pueris sentimentos
Perdemos quase tudo nesta vida, sobretudo o xadrez do tempo, a jogada de mestre que nos faria ganhar. Esgotamos sobretudo os sons da voz. Esgotamos a paciência, a vontade de acreditar, esgotamos a água e até esgotamos as memórias.
Mas de todas estas perdas, a pior é a do sangue. Gelam as veias, gela a paixão, gela a vontade de rasgar os panos do tempo, essa transfusão de amor que fazemos do passado para o presente
Custa-me dizer-te que sou um espécime antigo, habituado a sangrar com abundância. Vejo-me exangue a olhar-te daqui, tu que ainda oxidas o (meu) sangue com a beleza do olhar
Mas digo: esgotámos o ar fresco das árvores, a brisa maior do mar. Esgotámos os encontros e o crédito das estrelas, como quem viveu demais nelas até abraçar este mísero chão
Meu amor, diria eu, qualquer rubor que me vejas mostra que a tua imagem me transfere um capital cheio de graça e isento de dor
Mas o sangue, senhor, ferido que foi o corpo com adagas de solidão, o sangue vegeta, verme lento que busca a terra e nela entra
Lá fora, os carris da noite correm em direção ao mesmo fim
Passam desmembrados em sibilinos sons nos socalcos da cidade
Nós desembrulhamos a manta e com ela nos mantemos, meticulosamente sérios, enquanto os ouvimos ir e vir
Os carris da noite agudos e sublimes
Vamos mas ficamos, dentro da pele sustida, como quando o mundo nos espia e ouve
E nós os únicos com vida
A noite é linho e luz até chegar a madrugada. Apenas estás lá. Não sabes nada.
No leito flutuam flores de seda álgidas. Por onde anda a tua alma?
Nem sequer pensas nem sentes, és a seda e a verdade nos sonhos que te devoram até de madrugada
Viste casas, vistes rios inusitados, viste ruas cruzadas com demónios nas portadas.
Recordas tudo? Não, não sabes nada. Só uma sensação de linho fresco e um peso na almofada
Dantes, havia palavras alinhadas e prontas como telhas lusas de um telhado qualquer
Dantes destelhavas-me o coração e eu queria essa luz que então entrava
Dantes e agora, meros deíticos de um peso morto. O que te escrevo ganhou musgo. As tuas palavras deixaram de correr pela caleira, a limpar-me o rosto
Por quantos limos limpes, por quantas vezes me fales, fá-lo com apreço e mimo, porquanto este é o meu novo estado
De era pendente num velho telhado
De era imprudente que sobe para um céu onde não há ramos nem galhos
Mets-toi en garde, je suis encore vivant, dit l' arbre, presque aveugle, pour jadis distant
Hélàs, la vie est morte, dans mes veines de vert sang
Mais, écoute
Je me prends un peu pour jeune fille de feuilles brillantes
Avec ma fièvre et ma dentelle et mes racines épargneés par le temps
Je suis la belle oubliée au bois et je suis pour toujours dormante
Mas se vens, porque não vieste?
E se vieste a que vinhas?
Se vieres, vens bem-vindo, nas tuas misteriosas vestes
E na escala em que puderes, aparece, nada te impede de ver se sou quem nomeaste
Vir nem sempre é chegar e, como sabes, às vezes escurece
Mas vem, pode ser que me detestes
Escrevo sem nome o nome que no peito escrito tinha Aos montes ensinando e às ervinhas que o melhor que guardo de ti era o momento em que vin...