CANTEIRO DOS LÍRIOS
De lírios aqui se fala. Delírios e dores, areia das almas.
17.9.26
Dias perdidos
16.9.26
Várias razões
São várias razões, não me recordo ao certo de quantas, mas há uma que nos faz acordar para o dia e essa razão é o amor, na esperança de o dar a quem o busca ou de o buscar em quem não o tem. É terrível este equívoco, que pode durar toda uma vida. O amor é uma projeção luminosa sem factos, nem razões que o suportem. Quebrei os sete selos e pus a saque a minha alma, exposta onde a curiosidade alheia a sorve. Mas uma razão me sustenta, como trave mestra da existência. Não há amor nas palavras, há amor nos sentidos. E com isto encerro as minhas esperanças.
11.9.26
Metamorfoses
O que acontece quando percebemos que nada nos interessa, nem aquilo que dantes nos movia? Gostava de saber o que vem depois da apatia, sabendo embora que esta necessidade de conhecimento tem um fim meramente especulativo. Um estádio sucede a outro na rampa da idade, mas não é só a idade a determinar a indiferença relativamente a tudo em geral. Em qualquer idade pode dar-nos um enjoo geral da vida, uma sensação de inutilidade das mãos, dos pés, do pensamento.
Compreendo agora Gregor, o jovem protagonista da Metamorfose de Kafka. Nunca entendi a fantasia do autor. Uma pessoa vê-se transformada em inseto e a sua consciência intacta vive no corpo desse animal. Perde toda a sua mobilidade socual, a sua utilidade como provedor do sustento da família.
Que lhe resta que o possa interessar no mundo? Não pode fazer nada. Perdeu a sua anima, o seu objetivo de vida. Não era uma vida feliz, limitava-se a trabalhar duramente, mas Gregor era estimado pela sua produtividade. Naturalmente, perdida até essa liberdade de se mover, de sofrer e de se validar afetiva e socialmente, Gregor perdeu o intetesse por tudo o mais.
Parece-me que vivemos todos uma via-sacra de mudanças que nos arrancam emoções, sentimentos e até crenças. Não chamaria depressão a esse processo. Acho, simplesmente, que o mundo deixou de nos surpreender. Já vimos tudo, vivemos muito, adquirimos uma certa fobia social por via da loucura que ataca os homens e pronto.
De um ponto de vista filosófico há uma negação da existência, durante o próprio apogeu da existência, quando perfiguramos o nada no fundo dos nossos passos. Como Gregor percebemos a nossa própria inutilidade.
31.8.26
A trovoada
Já há várias noites em que o céu ruge em explosões de energia contida. Trovoadas espanholas, secas, daquelas que nos inquietam e nos prolongam nos mistérios do universo. É um rumor constante que alastra pelo mundo sem romper. Devem cair raios nos arvoredos, nas torres do mar. Feitas as contas, está mesmo sobre nós, mas somos seres abrigados, não nos sentimos alvos.
Clamamos por alívio, chuva. Nada. Tenho medo que a noite seca me entre nos sonhos e me amortalhe a consciência. É um inferno dantesco feito de choques de nuvens de energia que, mesmo no nosso abrigo, nos acordam o medo promevo dos primeiros homens, o medo instintivo dos animais e suas crias, afinal, como dizia o poeta, somos bichos da terra e nunca como numa trovoada nos sentimos tão pequenos.
30.8.26
Contagem
Hoje dividi os anos pelas rugas do meu rosto, depois dividi as palavras escritas pelo quociente obtido e achei o tempo emocional da minha vida. Percebi que dei tudo às emoções, as permanentes e as vencidas.
Fácil será perceber a razão entre estas. Permanentes são muitas. Traduzem uma vida. As vencidas não contam. De fracos não reza a história e eu ainda estou viva.
Só contamos o tempo quando não há mais nada para fazer. E hoje, como ontem e amanhã também, é dia de ser.
26.8.26
Escuridão
A escuridão do dia enegrece o sangue, sabendo nós que a escuridão é o lugar último do ser.
De que precisamos, depois de não termos mais nada a não ser sentarmo-nos a olhar a escuridão do dia, à espera da escuridão da noite?
Gotículas de água na janela. São pérolas perdidas, caídas do colar dos meus desfeitos amores.
Chove-me silenciosamente a solidão e o nada chove também nos olhos tamanhos e argutos com que nasci.
22.8.26
Sermos vistos
O sonho mais sonhado de sempre, o encontro. O início, a fonte. {E nós já o sonhámos juntos e, por vezes, éramos apenas caminhantes de bolsos lisos}
Longe no tempo, no auge do sangue, eu lembro-me.
Foi assim:
Um homem busca um pouco de amor. Uma mulher também
Nas ruas e nos cafés o homem ou a mulher olham para quem não os vê, olham todos, {haverá alguém?} Ou então evitam ver quem realmente não veem.
Nunca ninguém lhes explicou as leis da atração, {se é que já foram doutrinadas}
Passam por quem os inviabiliza, os anula, porque não são vistos, apesar do seu andar tranquilamente líquido, deixando um rasto de solidão,
E pensam, {a invisibilidade é o seu modo de ser}
Tudo o que o homem quer é ser visto por alguém que lhe devolva a presença. A mulher também
Mergulhar nos seus olhos e parar nesse momento o silêncio
Apagar o rumor e a réplica do desprezo. {Talvez alguém, um dia}
Mas um dia, sim,
o homem é visto e vê quem o viu, como quando uma pedra rola e se detém noutra
Surpreendida por existir um ombro para si, a pedra fica e também vê. A história pode mesmo acabar aqui, mas não importa: fomos vistos
{Sonhámos juntos este encontro tanta vez!}
20.8.26
A arte de existir
Para que tenta uma criatura simples rasar as aras dos deuses e poetas, no campo fértil das musas e das ninfas?
A verdadeira lírica está na existência comum - não tens nada, não és nada - mas tens nos olhos o reflexo de todas as viagens que fazes em teu redor, quanto simplesmente deixas de querer mais.
Existir é preencher uma pauta infinita com o som dos passos, escada acima, escada abaixo, na crepitação das ideias, na graça de criar e de reconstruir o belo.
A Natureza é o teu mundo. Não sabes ser sublime em nenhuma arte, a não ser na de existir, alheia ao tempo.
Não queres ser vista, nem amada ou admirada, queres apenas encher de poesia todas as horas do teu dia.
12.8.26
Ao diabo a guerra
Fragatas, freios, ferragem, ferrugem, mundo este que já farta e nos afunda
Fragatas por traineiras e, para a fome do povo, de que servem as bandeiras?
Estes petroleiros armados que cruzam os oceanos com fogo nas trincheiras, e a inteligência das máquinas soberana e traiçoeira
Tanques em vez de ambulâncias, debulhadoras, ceifeiras. À míngua de paz morrem os povos e a guerra enche a carteira
Submarinas léguas para nenhum rumo...
E são cargueiros em vez de carga, aquela carga de luz, onde os lumes são escassos, o rei é rico e vai nu
E para quê o ferro, o aço, a bala, a química impura,
Ante os luminosos olhos dos infantes que vão um dia morrer na arena de uma guerra nunca sua
Mas vão alistados por penúria, por medo e desventura.
Ao diabo a pátria que cobiça, a pátria que se encarniça com
Fragatas, freios, ferragem, fúria infinita, mundo este que nos fere e nos faminta
Ao diabo a bélica brisa de morte que nos pisa
6.8.26
Horizontes
Há palavras sem música, grosseiramente vestidas de cacafonias, sílabas duras que se juntam a outras. É tudo uma questão de vogais e consoantes. Ou se harmonizam entre si ou se obliteram e desalinham na pauta sonora, como dentes nascidos fora do lugar.
Aquilo que é ubíquo ou oblíquo, enferma desta dolorosa gravidade esdrúxula latina. São palavras indignas de um texto com pretensões líricas.
Mesmo assim tenho de usá-las, numa única frase que seja a expressão de um sentimento digno da arte:
O amor é um ser ubíquo, mesmo que oblíqua seja a sua voz.
30.7.26
Aves
As aves são breves, abundantes, felizes
Alastram a sua beleza real por covas, desertos e alturas
Eu já fui ave. Sei que sim, porque as minhas pernas são voláteis, o meu chão é ruidoso, a minha terra é o silêncio
20.7.26
Novas venham
Novas venham virar os ventos, com envergadura e verve, com suavidade ou febre, que venham Bóreas e seus irmãos, Zéfiro e Noto, Suão ou Este, que eu ninfa já não sou, mas mulher por certo, que venha o sopro cálido da tua boca, para mim que me vejo inerte
Novas venham virar o tédio, o nada seco do deserto, e que sejas tu, a quem me entrego, que seja a tua voz por perto e que eu a ouça, na ponta azul de qualquer verso
Novas venham abrir as portas e que eu viva, entreaberta, a alegria de seres tu, atrás de qualquer face incerta
17.7.26
O vestido das rosas
Tirei o vestido das rosas, aquele que voa com a brisa e se ergue com o vento
Vesti-o. Planei pela cidade a colher sorrisos, de pés leves e luz no olhar
Chegou a hora, amigas, dancemos ao sol e plantemos amor nos olhos e nos vestidos
Um dia assim pode mudar tudo, até ruborizar as rosas plantadas no meu sorriso
15.7.26
O Nada
Tudo que eu queria era dançar.
Cheguei ao mundo para viver e tudo que eu queria era sorrir e dançar até ficar corada,
Como uma minhota robusta e feliz
Sem estigmas de má sorte
Depressa percebi que ninguém escolhe o destino num menú de esplanada
E fiz-me forte
Mas a verdade é que eu falhei ao chegar ao mundo para contemporizar os vértices mais odiosos do Nada
Musa
Olha, Musa, é bom que te cales, porque já não serves nem ao poeta laureado de Paio Pires,
Nem ao poeta que tens alimentado em dezenas dos teus verdes anos,
Nem ao voyeur ocasional que te vem ler à sorrelfa,
Ou ao incauto que aqui cai como mosca desatenta e logo voa
Nem aos raros seres que sabem o caminho das loas que despachas para o silêncio sideral...
... tudo isto enquanto a tua vida desce na ampulheta, e o Amor não te toca no ombro com o gesto doce de uma simples presença.
Que tristeza, Musa, tantas horas deste a quem te sugou o pobre sangue e a escassa verve, e tu a pensares que havia Amor.
A tua cegueira, a troca de letras, a teia de rugas que ganhaste em vinte anos vezes 365 noites fazem de ti, Musa, a mais patética criatura do Universo. E ainda consegues destilar algo mais do que amargura?
És fantástica, Musa, mas o teu Tempo está a desaparecer. Estás indignada? Ou confusa?
8.7.26
Desencontro
Às vezes o amor vem, mas nunca és tu. É outro amor qualquer, uma alma desviada, uma máscara sem vida
Outras vezes o amor vem disfarçado, de mãos nos bolsos, com a timidez de quem quer, mas não quer querer
Quando o amor vem sem disfarce e és tu, mesmo assim, és tu disfarçado de ti
E eu gostava que viesses inteiramente tu, não há amor que dure assim, o de dois que se fazem um sempre à espera da eternidade
E o tempo é só um
7.7.26
Dores
No meu estendal pesam as dores, pesam os mistérios e algumas roupas velhas molham as flores,
Pesos que agora me pesam mais do que já pesaram. Parece que todas as dores se resumem numa só, perderam a sua identidade, a sua origem, a profundidade que atingiram.
Agora é só uma dor e chama-se existência, esse modo tão terreno de ser.
Tão próximo do não ser
4.7.26
Persianas
1.7.26
Asserções
Uma onda é a resposta a outra, como um eco é a resposta a outro
A atração, dois ecos que se encontram e se unem no mesmo som
E o amor? Ah, o amor é também uma questão de ondas espraiadas na areia, uma encontra a outra e rolam felizes numa fusão de águas
29.6.26
Material literário
Pronto. Agora já sabes. As palavras são sombras do que foram. É uma pena desafiá-las na sua pujança ou miséria de águas.
Também eu desapareço nelas. Lamentavelmente líquida, a minha vida corre mais do que eu. Queria ficar na antecâmara de qualquer facto.
O mundo mente. Tu mentes e eu já só vejo a matéria viva do tempo. É o crime do século. Desprezar a conotação, o lirismo, as rendas literárias e ser denotativamente banal.
Não desperdizes lume no teu apego ao ideal. O deslize superficial da foca. Isso sim, é material literário.
22.6.26
Medo do mundo
O melhor refúgio é dentro de nós
Fora, fica o ruído do mundo
Não me digam nada
Tenho medo
Profundo
Fundo
19.6.26
Cantiga
A existência é doce nos quatro cantos do meu peito.
É a casa de antes e a que será. Por esta porta entraste, por outra porta (não) sairás.
No ramo alto da mais alta árvore, um pássaro rasa a face do dia, o fogo vivo que será. E tu sabias?
Voos nos existem na sóbria paz. E tu, se os não sentes, o que serás?
Entrou o amor por esta porta, será que fica, ou partirá?
5.6.26
Sem nome
Escrevo sem nome o nome que no peito escrito tinha
Aos montes ensinando e às ervinhas que o melhor que guardo de ti era o momento em que vinhas
Racionalidades
Dirá alguém que a racionalidade rói por dentro a região do amor
E com razão o diz.
Já ando a escrever cartas de amor há tanto tempo que apenas a razão me assiste este mover dos dedos no teclado
Um ciclo teimoso de mim para ti
Onde estiveres poderás vir beber a tua sede de emoção
Mas alguém te dirá que o discurso amoroso é fruto de estranhezas climáticas
Alheias ao coração
4.6.26
Cometer
Cometo o impossível quando acometo o teu ser (tão fluido) com jogos de amor, tu que és como um cometa que varre o universo e se assinala aqui e ali, sempre em rota de nenhuma colisão, a cometer a vida como quem comete uma fuga
O amor joga-se ao ar, espalha-se até que o apanhe quem o quer e cometa a maior loucura de todas, a de o devolver como um boomerang de estrelas, que seja certeiro como a seta que o semeou e fez florir
Cometo a insana poesia do amor e tu cometes comigo o crime maior de deixar ser, como se a vida estivesse agora a nascer
28.5.26
Trocadilhos
Como me atrais, ontem e hoje, ainda agora?
Como me atrais tanto se tanto me trais?
E se me trais, vais ver a quem mais atrais
Noutra existência noutra terra, noutra hora
E se aí vais, alheio a meus ais, diz-me, porque me atrais?
São trocadilhos de quem trai a quem atrai, ou de quem atrai quem trai?
Perguntas estas tais, podes continuar a trair quem atrais que eu continuo a atrair quem não vem mais
27.5.26
Momentum
Efémero o olhar que balanço no universo, de estrela em estrela
A terra, escaldante, a brisa da noite a mexer-me no cabelo e eu deitada a sentir esse alento quente das lajes
Foi só um momento
Para eu ficar presa à lua, uma candeia de brilho, não foi preciso mais
Realizei que ela vai continuar onde está, depois de mim
Confortou-me pensar que deixo a lua aos meus herdeiros, conforme lhes deixo as lajes quentes onde pouso agora
O mundo pode mudar, mas não as estrelas nem as lajes do meu quintal
Achei que isso me fará partir feliz
24.5.26
Credo
Creio nas sagradas chamas da paz, flâmulas de contemplação, chamas de puro amor
Creio que o amor cresce como o trigo e a vida é pontualmente viçosa em cada estio
Creio que a morte é como as cinzas do lumeiro, sempre ardeu e arderá, enquanto houver braseiro
Creio em mim, como admiro as ervas que rompem o betão
Creio em ti como nas horas avançadas da noite, que crescem fundas na solidão
Creio nela sobretudo, nessa oração silenciosa de quem se reúne consigo e sozinho limpa devagar o que resta do seu mundo
De resto, creio em Deus e Jesus Cristo, Os que carregam a cruz de cada um, o gesto maior e mais profundo
Que eu recuso, sou só, carrego a minha luz e bebo do meu cálice a raíz do amor. Se amor vier, bebemo-lo juntos. Creio que sim
7.5.26
Pregão
Alimento a fome com pouca cousa. Basta-me ver o teu olhar, ouvir a tua voz e imaginar que a tua fala se projeta paralelamente ao meu ouvido, sem desvios, sem arcos em ogiva.
Na casa, a permanência é intermitente, como o farol do Bugio. Quando estou, escuto as ondas e espero por ti. Quando não estou, as ondas murmuram o teu nome. Mas tu perdeste a casa, como perdeste o brilho do olhar.
Grita por mim mais vezes, talvez te ouça, em vez de apenas ouvires as ondas, a voz seca das rosas.
Manda dizer um pregão pela aldeia, a anunciar que perdeste o caminho do meu ser, enquanto eu ando descalça pela vida, a jurar que eras tu, no outro dia, na esquina da tarde, a escutar, a olhar, a ver.
30.4.26
Ponto celeste
Eu sei que permaneces em lugares onde o hemisfério oposto expõe a sua belíssima flora constelar
Nunca vi os céus desse hemisfério, onde tu vês um, vejo eu o outro, nunca nos conseguimos morar
Mas, meu amor, repara, se o universo se comprimisse, haveríamos de nos fundir num só fogo, um ponto celeste
Haveríamos de ser unos, quando agora somos apenas únicos, dois únicos seres na multidão, esperando rasar a mão ou o olhar noutro ser único
Uma palavra com outra, adjetivo e nome, o verbo que teria o complemento em falta, Um admirável amor que assim se perde, Uma exata simetria que assim se busca - palavras que nos vêm frequentemente à boca
Tão inúteis como loucas
22.4.26
Quase a chegar
Estavas quase a chegar, meu amor, estiveste sempre a vir, vinhas logo, virias certamente muito prestes, mas não vieste
Sempre fui eu a ir, a correr comarcas e ribeiros, a passar pontes de palavras longas para passares sobre a sua trama escarlate
Flores ficaram em lugares escondidos, os caules envoltos em papelinhos pueris, as coisas que te dizia e vinham da minha pobre arte
Como aquela fonte (talvez cascata) que ainda guarda o meu perfil em espera, com o sol a acobrear-me os cabelos e tu sem vires, e tu sem veres
Os momentos passam, nós partimos, mas quem fomos ainda lá está
E tu sem vires e eu sempre a ir para cada vez mais longe das emoções
Que já não vêm, que tu não vens e eu quase não vou, porque quem fui é a sombra que cá está. E já chegou
20.4.26
Seres da madrugada
a todos os seres da madrugada, tanto os que sonham o dia, como os que embalam a noite, os insomnes, os doidos, os loucos, os bêbados, os operários que apanham por força maior o primeiro comboio da madrugada,
deixo o recado: somos unos na inquietude e há poesia bastante nos nossos atos, nos pensamentos que passam e voltam, aflitos ou encantados
estamos a meio da noite, à espera de um comboio que já passou ou que virá atrasado
mesmo assim alcançamos um lugar na transcendência do tempo, paramos, quem somos, de onde viemos, para que abismo caminhamos, onde acaba o imenso céu estrelado?
a poesia é o canto do primeiro pássaro que virá, sem falta, pontuar-nos os medos
18.4.26
Dizem
Dizem que o amor vai e vem, volta e parte
Talvez
Mas o que ninguém ainda disse é que o amor permanece
Quando para tanto há engenho e arte
Quando para tanto o corpo de amor se veste
31.3.26
Insónia de Amar
14.2.26
Dia dos (Des)namorados
Não sei que diga nestes dias especiais. Não há dias felizes com marcação prévia como no cabeleireiro. Que sejam felizes os apaixonados. Os que creem ser queridos e amados.
Eu bebi ilusão a mais, quis demais, amei demais. Agora tenho em mim a harmonia universal, seja lá isso o que for.
É cedo para me esperares, tarde para me desespetares, nada me arrasta pelas correntes, nenhuma água me leva, nem eu vou.
Desapego-me do mundo sem pudor. Estou bem onde estive. Nenhuma ausência levita em meu redor.
Depurei o sangue de qualquer licor e destilo a emoção serena de ouvir dizer que tive nas minhas mãos esta espécie de amor.
Só perto, mais perto, só muito perto o meu coração ouve o teu, nesta forma adérmica de amor.
29.1.26
Fúria dos deuses
Não digas nada. Escuta como é feroz este som da tempestade. Não perturbes o vendaval com o teu medo. Deixa-o largar a sua fúria até morrer. É o estertor dos tempos a lembrar ao homem o seu mísero poder. Como numa discussão de amantes, é preciso abater tudo, rasar, limar até ao declínio da voz.
Mas não digas nada. Nem tremas na tua caverna de betão. Às vezes, estes vendavais tremendos abanam janelas, torres, edifícios, só rugem, não dizem nada.
Outras trazem a mensagem prodigiosa dos deuses, um sinal de mudança que livra as pobres almas amordaçadas, limpa corações, lava rancores. A ironia suprema de ser num clímax de dor e caos que se mudam destinos.
Cuidado, já pode ter mudado o teu.
27.1.26
Cafeteira
Faço um café na velha cafeteira que faz subir a água para se juntar ao café. Enquanto espero penso na onda a molhar a areia, penso no vento a varejar a chuva, penso na emoção a crescer, penso na afluência do sangue ao meu rosto, penso em mim quando penso em ti ou quando os teus olhos se fundeiam nos meus. O som da cafeteira explode e rejubila.
Café pronto. Bebes tu ou bebo eu?
17.1.26
A emoção
A emoção abriu a porta, entrou e ficou brevemente atenta.
Uma sala sóbria e nela apenas uma cadeira e um homem.
Compunham momentos idos numa pauta muda. Choro ou riso eram as notas. Silêncios longos.
A emoção soube que era preciso preencher aquela vida. E ali ficou, enquanto pôde.
15.1.26
Intimidade
Quando foi que olhaste a penugem louea que me ornamenta os lábios e me afastaste o cabelo dos olhos, para me veres melhor?
Seria, talvez, num sonho de anjos, num daqueles momentos que só veneras depois de passarem. Na altura não são ainda momentos.
O que custa não é não viver, é viver sem ter vivido. Meu amor, se tu me afastasses o cabelo só para me veres melhor, não me desenhavas só um sorriso, mas toda a razão da minha existência.
14.1.26
5.1.26
Natércia
Se Natércia eu fora e tu poeta que és me desejasses, virias com olhos febris, espada e a pena aparelhadas, para me abrires caminhos, onde pudesse rir
Mas infanta não sou, nem tenho anagramas do poeta que a amou, sou a oculta face de um acaso
O teu olhar distintamente negro estará por aí sorvendo lábios, sorvendo vida e eu quero ser Natércia de ninguém, olvidada de todos, como penedo no fosso da lua
Escolho ir, tenho de ir, já não há nada para ficar
28.12.25
À beira do rio
Não mudámos o curso de nenhum rio, nem secar o vimos secar. No entanto estivemos sempre de mãos dadas desatadamente cegas à beira desse mesmo rio.
Não bebemos a sua água, por isso o nosso esquecimento é episódico.
Como os deuses, já somos antigos na arte de amar meros mortais, produzindo vagas de ocasional desejo.
A que tarda
Perdemos hábitos como os velhos perdem dentes. Por exemplo, esperei-te tantas noites na tua capa homérica, sem conseguir encerrar a noite, inconclusa esta por falta da palavra, tantas vezes te quis sentir, tanto quis ouvir o discurso lírico da noite, que acabei por me fazer eu a que tarda, a que tardou por ser demasiado imaterial o improvável abraço, a incerta intimidade. Mas sabes que fazes parte do meu plano de paz. Para a morte, ainda não, mas para uma pequena vida. E hoje, ainda por cima, abusei do café e da saudade.
18.12.25
Envelhecer e amar
Envelhecer, uma operação quântica que Afeta e pele
Os músculos existências
Amar é uma operação alheia a qualquer processo temporal e afeta apenas
O músculo do coração
E bate sempre na sua contração de sangue, sempre vivo
Amar e envelhecer, é lixado
Até ao fim, em caminhos paralelos inconvergentes, porém
Tangenciais
Emocionalmente ocasionais
Fala-me com o teu sangue, nenhuma batida emocional será demais
24.11.25
Temos pena
A existência quem disse que se dissolva todos os dias na mesma velha taça dos mesmos dias? Um qualquer existencialista privado do sonho, uma aparição feroz, uma verdade. Temos pena.
Dói saber que tudo é intangível para lá do nevoeiro chuvoso. Tudo. Até para lá do Sol. Da Lua enganosa. Buscamos o sentido da vida através de velhos reposteiros e a vida é uma renovação exata da dor.
É verdade, sim. A viagem faz-se lenta, o mundo encolhe, as vozes suspendem-se no pó.
Velhos amores em napperons feitos de laçadas do pensamento e da saudade. Velhos poemas de um fervor salino.
É assim que deixamos de esperar que subitamente o amor venha ombrear connosco, tal como connosco vem ter o sol posto.
Tudo é demasiado intangível meu amigo. Existimos para imaginar sem viver e vivemos do que imaginamos. Uma maré cheia vazia de sentido. Temos pena.
22.11.25
Ao inverso
Cheira ao fumo das lareiras, os cães não ladram trôpegos de frio.
Esta noite recolho o coração nas mantas, por falta do teu corpo, para dividirmos o frio e o chá por dois, para levarmos adiante a mesma insónia, o riso igual.
Não é verdade que partiste. Dizem-me que sim, mas eu sei que é tudo inveja, nunca viram, nem sonharam, um viver assim.
Perco-me nos dias e penso sempre que amanhã é véspera de alguma coisa. Talvez espere um pouco de apaziguamento, assim como um abraço silencioso que funde o frio e fende o mundo.
Mais nada me interessa, sabes? Tenho a pele couraçada desta ascese que nunca quis. Apaziguamento, muito, muito íntimo apaziguamento, a força que nasce de dois é algo por que se pode viver.
Mas ficamos aqui cada um ao frio, cada um de face muda, a contar o peso dos dias. E não há regresso. Caminhamos tristes e pálidos ao inverso, sempre ao inverso e é inverno as noites são tristes assim.
23.10.25
Drawing a portrait
18.10.25
Resistência
Uma cela fechada onde cresço com o que me restou
Um terrasso sobre o mundo onde pinto as dores da alegria
Palavras assombradas, a sair de uns dedos desabitados (porquê hoje?)
Porque resistes e descobres que nem tudo nos riscou o dia
Porque uma vida tem a duração exata da primeira à última resenha de poesia
E as contas são feitas com a emoção da primeira vista, do primeiro olhar que nos refletia
E, assim, não há nada em mim que te resista!
6.9.25
No rescaldo do tempo
Como estás hoje no teu mundo? Moras a terra justa, drenas o tempo em barro seco, ou enleias memórias num novelo?
A que te sabe o dia, um morno domingo algo outonal, onde a esperança inverna?
Que salvação temos nesta incúria do tempo? Nada nos salva, meu amor. Só o teu nome, como um sopro na nuca:
ainda não chegou e já é coisa difusa.
Mas a tua sombra, sabes bem, onde estiver, é única.
16.8.25
Não consigo viver mais dias. Já são tantos e tão inúteis. Preparo lentamente a minha fuga, a maior de sempre. Será rápida e ninguém dará por mim, já que, presente ou ausente, ninguém me pressente. Falta aqui uma palavra. Uma só. Um só lírio. Nunca se ouve uma voz. É uma peregrinação que me assusta. Como se, na verdade, as minhas palavras viessem de um túmulo e esse túmulo fosse o meu. Pois bem. Que assim seja.
Recentemente...
Dias perdidos
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