29.1.26

Fúria dos deuses

Não digas nada. Escuta como é feroz este som da tempestade. Não perturbes o vendaval com o teu medo. Deixa-o largar a sua fúria até morrer. É o estertor dos tempos a lembrar ao homem o seu mísero poder. Como numa discussão de amantes, é preciso abater tudo, rasar, limar até ao declínio da voz.

Mas não digas nada. Nem tremas na tua caverna de betão. Às vezes, estes vendavais tremendos abanam janelas, torres, edifícios, só rugem, não dizem nada. 

Outras trazem a mensagem prodigiosa dos deuses, um sinal de mudança que livra as pobres almas amordaçadas, limpa corações, lava rancores. A ironia suprema de ser num clímax de dor e caos que se mudam destinos.

Cuidado, já pode ter mudado o teu. 

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