manhãs delicadas de fina obreia
doce madrugada que se estende
para além da vida verdadeira
seja em sonhos preenchidos
por claras luzes de tempos já passados
seja em sensações desprevenidas
dos sentidos que já foram
reunidos, vários, aguçados
o mundo é uma manta em cinza
que cobre a cidade e os seus incêndios
a vida corre nas avenidas solitárias
nos passos surdos ecos nas calçadas
gente com a alma presa inanimada
e toda a escrita que derramo
verte inúteis palavras sem propósito
sem mais registo que o de serem
meros sinais de uma manhã acinzentada
uma clara carência de ócio, de luz,
talvez de nada
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