às vezes a boca cega seca sem a saliva das estrelas
não voam asas ao alcance dos braços, nem passam cavalos
de longas crinas de sisal
é Maio e as flores tardam em ficar
as aves vieram mudas e as estátuas estão frias
ainda que lhes dê o sol
às vezes é assim: nas lousas antigas ainda resta
a caligrafia laboriosa das primeiras letras
e já nós somos começamos a esquecer as palavras
é tarde e já é tão cedo, olhando por cima do tempo
as escadas cedem ao peso da rarefacção dos átomos
temos lume e temos peso e é tudo tão rápido
é por isso que às vezes é assim: vertemos tudo
e depois, de tanto, o nada passa a ocupar o lugar
em que dantes o tanto estava
mas saúdo a tua vinda, em vez das andorinhas,
às vezes basta um aceno e parece que que as aves
encontram os lugares para onde vinham
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