11.5.11

Naquela noite sentia-se fresca e polida por dentro e por fora. Como uma pedra saída do rio, um seixo pequenino, sentia-se limpa e revigorada, com vontade de se deixar ir na impetuosa corrente. Era uma
noite já quente do mês de Maio e os ruídos da cidade eram mais leves, suspensos numa atmosfera alta, como que pendurados nas estrelas. Ela tinha rosas no olhar e eram de seda as roupas da noite, amplas roupas que lhe deixavam o corpo livre. Pousou o livro e começou a pensar em não ocupar a cabeça com nada de inútil, a não ser a sensação que a tomava. A frescura interior. Pensou que nunca antes tinha experimentado tamanho bem estar. Sobre os olhos sentia o cansaço da maresia e do sol, a vontade de deslizar em tufos de brandura, brancas florestas e branco orvalho. Achou que talvez a forma de se alcançar a frescura não estivesse no banho, ou nos lençóis, nem sequer na roupa.  Tinha a certeza de que nada disso poderia trazer frescura interior. Ocorreu-lhe que talvez tudo se devesse ao cansaço, ao lazer, à paz interior que ultimamente trazia ao peito. Mas não, a frescura trazia uma espécie de intimidade que alisava o rosto e dulcificava a pele. Deslizou nos lençóis, Sabia que não demoraria a deixar-se levar pela corrente, fresca e lisa no resto da noite. Mas antes de adormecer, surgiu-lhe um rosto masculino na memória intermédia. E soube, pelo seu olhar, tão sério, que a seda fresca não era senão o toque fundo do olhar dele, uma elevação na noite, a asa leve que lhe tocava: a intimidade tornou-se fresca, uma carícia de mãos plenas, frescas também e soberanas. Adormeceu com os lábios frios e a boca húmida. Havia um nome (não o sabia, mas era decerto fresco e floral) e esse nome trazia-lhe a leve brisa da noite, o bem-estar das manhãs de Maio.
Era um olhar que lhe alisava a vida. Ficou a sentir a noite. Lisa. Reiniciou um a um todos os olhares e os que não houve, nem viriam a  haver. Frescura. Alisou a almofada. Gostava tanto de o voltar a ver. Levou-o consigo antes de adormecer, para a frescura do corpo. Tudo que a pele pressentia lhe vinha de dentro e de tão dentro lhe havia de nascer a intimidade que ficou a ver os sonhos a bailarem com leveza. De tanto lhe ser. fresca.

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