27.1.19
a febre da partida
os lírios flutuam no gelo
o gelo é branco como a morte
a morte que todas as noites
deita faíscas fosforescentes
nas campas mais recentes
no gelo flutuam crianças
os filhos do tempo adverso
os filhos da seca e da fome
os filhos que nenhum pai protege
a cor errada, a dor errada
a vida errada o fumo e o vento
no gelo flutuam vidas
embrulhadas numa mortalha oceânica
foram felizes na travessia
a esperança brilhou-lhes no rosto
até ao derradeiro momento
a travessia é oposta
os cargueiros dantes e as caravelas
levavam homens para terras deslumbrantes
voltam de lá como se o agora, aqui
limpasse toda a dor do não havido
porque o que houve antes
não chegou a ser cumprido
a porcelana, as especiarias,
o café, o tabaco e o cacau
o ouro, os diamantes e o largo rio
miragens que o homem achou
nos desertos mais aborescidos
nas savanas mais quentes
há um eldorado em todas as esquinas
de todas as vidas
vamos, outras vezes ficamos
porque o melhor sítio pode ser onde não estamos
ou porque tudo que nos mantinha
já nos findou, mutilou o ânimo
por isso, o homem parte
e busca a novidade
o lugar onde possa descansar
pode ser na terra, ou no oceano
mas sempre ficam lírios tristes na corrente
sempre deixamos lugares para sempre
sem termos âncora ou vela ou porto
onde fundear de novo o coração
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