22.6.19

Fait divers


o vento hoje é plangente
atravessa-me os cabelos, os olhos
e os membros
lamenta-se como gente
e quando o vento assobia assim
abre-se uma janela para o medo

sinto a minha infância toda a abanar
nos dias agrestes pelos montes
as portas e janelas mal vedadas
gemiam como almas desasossegadas

e eu oprimida pelo vento
que sopra dentro da memória
e ao redor do quarto em crescendo

atrás do vento veio o fogo
estalos fortes na tapada
o mato a arder em chamas altas

buzinas, sirenes, um helocóptero
a transportar água
os vizinhos na janela com um espetáculo
de graça

depois veio a paz e o silêncio
de uma tarde calma
entra uma brisa da janela entreaberta
e eu respiro azul, aliviada

o vento cedeu espaço à primavera
voltam os trinados do entardecer
e o verso vem-me à boca,
com a poesia no ar

contemplo daqui o verde que sobrou
e então eu sinto
a Natureza lançou um apelo ao homem
e foi intenso, mas não sei se o homem
entende agora este silêncio


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