26.6.19

Retrato

Vejo o teu rosto e penso num poema
Daqueles que riscam palavras a doer
E que nos deixam a boca a sangrar
Com um sorriso intenso
 
Penso em sombras acentuadas e de alguma forma elas parecem revelar mais que esconder a luz cessante
dos teus lábios,
onde podia haver cerejas e está uma semireta inclinada nos cantos
como uma adaga pendente

Mas admiro sobretudo o equilíbrio perfeito da tua fronte, confluente para o
traço agreste dos teus olhos
com um triângulo escuro e ardente

Está-se tão bem no teu retrato!

Sei que deve ser sempre verão no teu sorriso, porque está ornamentado
Com uma mesa, um livro e um café
Onde apetece chegar todos os dias só para 
rasgar a solidão rabiscada num papel

E eu adoro a absorção do guardanapo que deixas cair para eu apanhar, como Cristo fez com as cerejas, nas areias ardentes do deserto

A dobra do teu peito, imagino-a armada de uma alta densidade, resistente à humidade 
dos dias em que chove por dentro

A tua face, vária como as tintas que te ponho dentro,
interroga sem perguntar nada e eu,
sem saber desenhar a brancura dos teus gestos, mesmo assim,

Entro no teu retrato e sento-,me. Está-se tão bem cá dentro...




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