É estranho. O meu poema tem gatos a amarinhar pelas palavras. Penduram-se nos versos e pulam pelas estrofes. Só não miam com as rimas porque não as faço, por norma evito-as, quase sempre tão primárias como os instintos dos bichos.
Reafirmo que aqui há gato, quando resolvo incrementar poesia num bicho doméstico. Mas, ultimamente, comecei a dar-me com eles em grandes solilóquios feitos de olhares.
A poesia dos gatos está no modo como nos olham, diretamente nos nossos olhos, como se nos entrassem por dentro da pele e aflorassem delicadamente os nossos pensamentos com as patinhas
amáveis.
Não há nos homens olhares penetrantes que sejam amáveis. Quase sempre atravessam a linha da indelicadeza. Parecem abutres, porque rasgam a carne que olham.
Mas os gatos, não! Olham apenas porque sim. Espiam-nos com a mesma curiosidade com que olham os pássaros de manhã. Por isso há poesia bastante nos felinos. Sabem maravilhar-se no mesmo silêncio com que se enroscam para dormir.
Perdem-se dentro de si mesmos, tal como se perdem dentro de nós. É como se fizessem amor com os nossos olhos e se vertessem inteiramente neles.
Não pestanejam, não se desviam, nem se perturbam. Com o tempo, os gatos são espelhos vivos de nós. Ou somos nós que com o tempo passamos a ser espelhos deles? No conforto de casa, livres, contemplativos, preguiçosos, indolentes?
E quanta poesia não há nessa animalidade consciente? Consagro a existência poética dos gatos e deixo-os à solta para sonharem livremente.
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