cheguei à tua voz irremediavelmente tarde
já ela embrandecia o ventre de outras
já era ido o dote do meu corpo
chego sempre onde já fui e todos os verbos me conjugam no passado
eu não te amei. amo-te com a devoção das monjas ao senhor
como elas cruzo o teu corpo no meu peito,
onde nada mais se prende
numa laje fria posso despojar-me de tudo, até da solidão e do pecado mais turvo, mas nunca de ti
meu amor, eu já estive para além da vida e tu não viste. fui noiva sepulcral da morte e quando ela me levava tu não olhaste
nem eu vi que partia até ter achado no desamor à vida, ao mundo, a mim e a ti
uma razão para ceder
cedi. cedo foi ida a esperança. cedo cederam as certezas.
mas tu quebraste a morte, e eu fiz de conta que sim, que o teu sangue forte
pulsava para o meu corpo de mulher.
acendalha deste fogo frio,
porém ardente, deste-me vida, porventura nunca saberás quanta.
a veia é a tua voz que me vem ao corpo em cada quilómetro do dia, quando descubro que quero mais estrada à minha frente.
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