24.4.20

reanimação

cheguei à tua voz irremediavelmente tarde
já ela embrandecia o ventre de outras

já era ido o dote do meu corpo

chego sempre onde já fui e todos os verbos me conjugam no passado

eu não te amei. amo-te com a devoção das monjas ao senhor

como elas cruzo o teu corpo no meu peito,
onde nada mais se prende

numa laje fria posso despojar-me de tudo, até da solidão e do pecado mais turvo, mas nunca de ti

meu amor, eu já estive para além da vida e tu não viste. fui noiva sepulcral da morte e quando ela me levava tu não olhaste

nem eu vi que partia até ter achado no desamor à vida, ao mundo, a mim e a ti
uma razão para ceder

cedi. cedo foi ida a esperança.  cedo cederam as certezas.

mas tu quebraste a morte, e eu fiz de conta que sim, que o teu sangue forte
pulsava para o meu corpo de mulher.

acendalha deste fogo frio,
porém ardente, deste-me vida, porventura nunca saberás quanta.

a veia é a tua voz que me vem ao corpo em cada quilómetro do dia, quando descubro que quero mais estrada à minha frente.


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