Fico parada no túmulo quando a noite se cruza com a morte
e as musas de cabelos arrepiados cedem à escuridão,
propagando o vale e os seus sons cavos
Sou como as aranhas diluídas no éter dos dias retos,
sem nada para sentir, com um leito de empedernidos pegos
No coração das estrelas, tudo pulsa muito ao longe
Não me assinalo, com medo de acordar a solidão dos astros,
e, se a pudesse puxar para me tapar, fecharia para sempre
este desejo deserto de ti, este deserto desejo de amar
Neste lugar onde me vês estiveram outros, esperaram outros
pelas espigas do verão, espigaram sozinhos a maturidade maior,
deixaram palha e palavras de regressão. Mas não voltaram.
Há tumultos que não sei dizer, demasiados olhos negros
arrancam as raízes e deixam a terra nua, todo um passado morto
entra pelo chão e vem arrancar raízes e plantar horas,
como num corpo qualquer se plantam as carícias da primeira paixão.
A terra resgatada por braços morenos e batida por
vagas louras de fardos famintos para o inverno dos bichos
tudo louro e eu a escrever-me em algas puras de um retrocesso sem trilhos
sem peixes que possam navegar o sangue. A terra ácida.
Como é doce ser terra e revolver o azoto puro da paixão,
recordações da destruição subliminar dos sentidos, como sabes,
sob a enxada que manejas saltam búzios feridos,
cítaras, sátiras, solta-se o aluimento do corpo, uma fuga de águas fortes;
algures terá havido um prado e uma presença deserta que cavou fundo.
Não me ensinaste a não sentir. Tudo que é ventre ventila o quarto,
tudo que és tu invade o corpo, tudo onde não estás investe na brancura das noites alvas,
quando nevoeiros abismados nos alumiam, tapando a Lua.
Não aprendi a ficar quieta, enquanto o meu corpo se molda ao vazio
como uma pedra, um paramento de padre. Um plácido suspiro pio.
Esta história é um campo de marchas nupciais que foram bélicas
e vãs, para outros como nós, sob o vão que toda a vida descreve sob o sol:
nasci, cresci, morri e não amei inteiramente o corpo amado do amor.
Pelo meio, amei-te, recunciei-te, renunciaste-me, renunciámo-nos
E ainda não aprendemos nada um com o outro sobre os sentidos.
Nem sequer a matar o sentir, sem sangramento.
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