15.7.26

Musa

Olha, Musa, é bom que te cales, porque já não serves nem ao poeta laureado de Paio Pires,

Nem ao poeta que tens alimentado em dezenas dos teus verdes anos,

Nem ao voyeur ocasional que te vem ler à sorrelfa,

Ou ao incauto que aqui cai como mosca desatenta e logo voa 

Nem aos raros seres que sabem o caminho das loas que despachas para o silêncio sideral...

... tudo isto enquanto a tua vida desce na ampulheta, e o Amor não te toca no ombro com o gesto doce de uma simples presença.

Que tristeza, Musa, tantas horas deste a quem te sugou o pobre sangue e a escassa verve, e tu a pensares que havia Amor.

A tua cegueira, a troca de letras, a teia de rugas que ganhaste em vinte anos vezes 365 noites fazem de ti, Musa, a mais patética criatura do Universo. E ainda consegues destilar algo mais do que amargura?

És fantástica, Musa, mas o teu Tempo está a desaparecer. Estás indignada? Ou confusa?

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