a ronda da noite percorre as cores todas do quadro,
é uma noite talvez sevilhana ou basca
ou holandesa
iluminada por uma lamparina fosca
e pelos olhos agoniados dos homens
da paisagem
atravesso o quadro, a medo
afinal a noite está-me pintada na pele
gosto de viver neste quadro
nesta narrativa de febre e de tortura
como um soldado de dentes estarrecidos
sei da noite os horrores ocultos
os passos desconhecidos
um pintor que agita a noite numa tela
Rembrandt ou Velásquez
pouco me importa
talvez um poeta que rasga ruas e janelas
e ranja contra os dentes as palavras
que lhe sobram
tal a escuridão que ensurdece os seres
numa noite estampada num lençol
a cidade recua, clara e bela
as sombras envolvem o silêncio
e só ouço os passos da ronda
e um golpe frio e intenso
visto a voz rouca do flamenco
lento ritmo e desespero
e não renuncio ao sonho
à travessia de outro tempo
gostava de ser o lugar onde tudo acontece
talvez por dentro o grito que parte
contra o medo
e o movimento em frente
de algo que se acende na noite
em tons de morte, em fios de neve
ou de coragem
como se eu fosse o olhar que capta,
a força que reage
e o sangue que se derrama
nunca um corpo lento
deitado numa noite de Outubro
esperando a tua voz que venha
e o teu hálito que, diáfano,
como um véu de luz se alce e sonhe
até que a tua solidão me encontre
e a mim se prenda, nesta ronda
que é efémera e sombria,
nesta noite que nos tinge os lábios
de fervor e de fadiga
.
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