18.3.11

(des)temporizar o tempo


sempre te soube de núcleo negro feito de pérolas escurecidas que te tenho visto tanto nos dias sombrios da Primavera, como nos risonhos, nas invernias, ou nos solstícios plenos. a morte vem-te ao palato como o gosto acintoso da azia quando te alimentas apenas e só das tuas horas. conheço-te o tempo que bate no peito humano, um tempo angustiado, como um conta-quilómetros que desdenha da pressa que não temos. mas não temas. a minha relação com a morte é a que manteria com um parente afastado que mal conheço e sei virá um dia visitar-me para ficar comigo para sempre. é assim que o espero, esse parente negro que mudará o estado da minha existência para algo mais leve e elevado, próximo, como o vejo, da paz que sinto nos momentos de fuga para a sonolência. pensa que não há tempo aprazado nem com a vida nem com a morte. será o que for. e o que for é um futuro conjuntivo, uma possibilidade de aspecto não temporalizado. desmarca o teu relógio, seja o que for que vivas no teu corpo. deixa que o sol te penetre a pele, como um desejo, e depois adormece ao sol, com um longo, profundíssimo bocejo.

Uma prenda:
ver e sentir Monet.




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