e lá estás tu, na esquina como uma sinfonia de luzes a alumiar o lusco-fusco enquanto eu chego armada de trabalho, em busca de um lugar para pousar o carro e o dia também (como se fosse possível) e lá estás tu, subitamente, como um farol no nevoeiro a empatar o tempo, a respirar o relento ainda leve da urbanização e eu sinto que o teu olhar me segue, embora eu tenha optado pela protecção dos carros. passo a fila, envergonhada do stress nas olheiras e da roupa demasiado desinibida e confortável e do meu ar pasmado e recolho a casa e ponho-me a pensar que basta a tua possível presença para me levar a procurar na janela um contacto com a noite e com uma sede súbita de algo forte que me aqueça o estômago, um cigarro e, porque não, um copo russo e um pouco de vodka, a pensar na alma russa e na minha amiga Olga que viveu comigo na aldeia alentejana, quando no exílio te procurava cega no fundo de um copo russo, entre as gargalhadas dela e a sensação boa de não estar sozinha. tenho saudades de tudo. da alegria, sobretudo. e agora parece que há algo na tua presença que me devolve essa alegria e a vontade de gargalhar ante a simplicidade da amizade e depois de voltar para dentro continuo a pensar se a tua aparição usou um corpo alheio ou se és exactamente tu, aquele que às vezes, raramente, surge na rua e corre, raramente, só às vezes, para me abrir a porta e me carregar os sacos de compras e o cansaço, escada acima, com um olhar grave profundo. e pronto, já disse tudo.
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