30.3.11


há noites maiores, das que nos acordam um impulso quase ímpio de rasgar os véus do templo e de vislumbrar paisagens de Verão, sombras marinhas e árvores que apetece abraçar como pessoas. tão dentro, com a casca da pele unida em seiva e sol. e depois há noites tão demoradas que a Lua nos acolhe em si para embalar a dor da ausência. e ainda há outras noites, aquelas em que, do frio, apenas nos resgata o lume das palavras. e outras tremeluzem como o espinho das estrelas, na carne nossa. gosto das noites em que nos imobilizamos reservados com um incêndio no olhar, quando os olhos se fecham  e nos resgatam de infernos distantes. para lá do mar. já tivemos todas. e vendaval. e foi numa dessas, apocalíptica, que os nossos destinos se misturaram como um só movimento dos elementos. desde então, gostamos da chuva, clamamos pelo vento, abrimos a janela à tempestade, amamos o raio, o fogo, o relâmpago e a torrente, toda a fúria do céu que nos desaba em palavras. voltará a haver uma noite assim. reunir-nos-emos na mesma janela, no mesmo cigarro e, num intervalo, voltaremos a desatar os destinos que, desenleados, encontrarão um novo caminho de liberdade. talvez depois nos encontremos. estás livre? estou. eu também. vou andando. já é tarde. sim. eu também.

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