depois do desastre matinal das meias, (nunca as há inocentes e meigas, sem uma malha ou um buraco no dedo do pé), depois da cegarrega dos capuzes e dos narizes assoados, e só depois disso e de muitas mais pequenas convulsões domésticas, (chega pa lá, ó mãe ele tirou-me isto ou aquilo, não fui nada eu, foste tu), enfim parto para o trabalho e o primeiro movimento, logo que fico só, é o de suspirar a profundos pulmões. o quotidiano mata-nos. transforma-nos em seres piores do que virtualmente deveríamos ser. parece que corremos atrás do tempo, sem nunca o alcançarmos e, quando chegamos perto, logo o perdemos, ou não o ganhamos, porque mais e mais trabalho nos leva à pressa inicial. e não ficamos por aqui. quando achamos que podemos parar para fazer algo de que gostamos, sentimos mil e um remorsos de deixarmos para trás o bem-estar dos outros de quem cuidamos. e assim, ainda fazemos mais, esticando o tempo ao limite. para nós pouco resta. fazemos mil e um malabarismos para manter o cabelo limpo e penteado, as roupas arranjadas, os olhos serenos e o sorriso sem gretas, o nariz sem a vermelhidão das constipações, a silhueta discretamente ampla, mas não volumosa, os dentes impecáveis sem pôr os pés no dentista e, claro, as meias sem malhas. e devo dizer, em abono da verdade, que de todas as minhas contingências diárias incluindo essa espécie de informaticite aguda que me dá, de carregar com data-show, portátil e colunas, pasta e livro de ponto, é a cena das meias que mais me enguiça a manhã. eu bem as dobro e as viro e reviro em montinhos com destinatário próprio, num cantinho do fim de semana... mas nunca as há em quantidade suficiente. ponho-me a ansiar pelo Verão, a malta toda de chinelos, a frescura da sola em contacto com o calcanhar, a rapidez do acto de vestir, para além das outras coisas boas e pronto, assim se vê como uma simples reflexão sobre as meias e o quotidiano, me leva a uma fuga perfeita para a ausência de rotina, ou mesmo com ela, para o tempo em que a leveza e a cálida onda estival nos desperta todas as manhãs, já frescos, já moços e fluidos com um braçado de Maio no olhar.
30.3.11
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