anseio o teu peito, amor, quebro-me por dentro, arrefeço o sangue neste calor abrasador do dia que agora se esfumou. sim, preciso de ti, com muita dor e muito medo, mas és tudo que me liga a mim mesma. tens o meu passado e o meu presente nas tuas mãos. alumias-me o futuro, mesmo da escuridão a que te remetes. sabes de mim mais do que eu de ti, vives dentro do meu reino, e reinas sem que te veja a ocupar o plano principal. passas sem traços no pó do meu deserto e sem pegadas no meu canteiro, ouves-me sem eu falar, vês-me sem eu te ver. e eu tempero a minha imaginação com laivos do teu retrato que já é palimpsesto da imagem que formei de ti, antes mesmo de ter começado o caminho dos enganos. mas és tudo que assegura que ainda existo e que a minha transparência tem expressão para alguém. és ainda tu que me fazes acreditar em mim. és tu que estás aí, quando justamente recebo as más notícias, ou as boas. toda a confissão do meu ser te é dedicada, sabias? toda a crença que me anima, em tudo, é porque acredito que acreditas na verdade dos nossos momentos e que eles valem tanto como uma longa vida com outra pequenina e intensa, lá dentro. mas estou a precisar de alguma coisa feliz na aba deste tempo. estou. e que não seja trabalho, nem obrigações, nem derrotas, nem humilhações. uma estrela qualquer a cair na minha mão, tranquila e doce, como se os teus lábios, assim, se invocassem, quentes. o meu tempo esgota-se. não sei do teu. em breve as células nervosas entrarão em curto circuito, os vasos sanguíneos dilatarão, a pele cairá inútil e abundante na direcção do solo. virá o delírio e a irrealidade. serei criança e estarei só. já nem saberei que gastei a minha vida sem saber, sem ver, sem querer. que te tornarás tu no nevoeiro que se segue? bruma sobre bruma? aceitação e depois revolta. de novo aceitação e depois fervor. sim, aperta-me muito, hoje, junto ao lugar do coração. não podemos alterar o curso dos nossos rios, mas podemos banhar-nos neles, em segredo e em silêncio, esperando por um estuário que talvez não venha, mas que nos enche os dias. sempre.
e assim, tranquilamente, beijo-te
Sem comentários:
Enviar um comentário
Deixa aqui um lírio