23.3.11

todas as luzes do dia extintas na fala obrigatória, (ah, quantas palavras saem por dia da boca dela e todas elas necessárias e efémeras, e quantas coisas desdobra na voz, às vezes mal ouvida, de frágil e pouco encorpada que o é, a voz) e quanto lhe sabe  a lagoas e a lagos o silêncio povoado de cintilantes boas vindas. depois do dia, o afago. é o que a noite lhe é, pensa, ungida já na cela do seu quarto, a noite é um afago prolongado que pode ser extensivo ao prolongamento da alma, quando fica queda e atenta com os olhos ao que se move dentro. paz, talvez, ou não, uma espécie de sucedâneo da paz, um estado que a humanidade ainda não viu, composto de bem estar e de elevação. não, não será bem êxtase. esse já o sentiam as santas ornadas de camélias e de dor. é algo novo que não traz a inquietação do êxtase, mas que pode equiparar-se, se pensarmos bem, ao prazer de um gato ao sol, quando o corpo se deixa aquecer e o sono lhe turva os pensamentos, sonhando que sonha com o afago do dono que mais lhe apraz. dito isso, que imagine esse estado quem for capaz de se fazer amar e de se deixar amar, silenciosamente, sem restrições e sem reservas porque só por dentro se poderá sentir a sublime origem de cada momento. a vela arde devagarinho, sem se esgotar - cresce quanto mais arde - nem deveriam ser precisas palavras para lhe assegurar oxigénio bastante. mas são. com as palavras a dádiva engrandece e assim a noite retrata no espelho de cada um o que o outro espera, mesmo que se apaguem as estrelas, ou os prédios sejam perfis na bruma, eles virão ver-se na alma um do outro, o lago da ventura. já foi assim quando se encontraram, mas não sabiam ainda quem viriam a ser. tão pouco sabem agora quem são.



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