18.4.11

evidências

que dizer do tempo, senão que nos queima por dentro e nos gela por fora? pouco mais faz, o tempo. abre caminhos no rosto e nos pés. rasga-nos luzes que nos cegam por fora e nos ardem por dentro. conduz-nos ao tempo. é isso que o tempo faz. conduz-nos a si mesmo, como um comboio nos leva ao terminal. tenho o tempo contado na pele. e tenho ainda o tempo pautado por minutos e longas horas de ocupações que me consomem o tempo que sobraria para viver. não me chega tempo avulso para contar o que faço com o tempo e o que ele me faz. preciso de me libertar de tudo que me ocupa sem me ocupar por dentro - a inutilidade das coisas que nos consomem - para nos retirar a alegria de apenas existirmos. preciso de reencontrar o tempo. ir de encontro a uma brecha, uma janela, uma varanda, uma paisagem, um recanto vasto onde me caiba tudo que se faça para além do tempo, mesmo sem tempo.canso-me a lutar contra a rapidez do tempo: grelhas de avaliação, grelhas de auto-avaliação, relatórios de avaliação, relatórios de auto-avaliação, desempenhos, evidências, acções, planificações, reflexões e outros tantos relatórios por cada acção que desenvolva. (e a cozinha, o pó, a roupa, a humidade das paredes, as janelas) o tempo fica assim triste por dentro, porque nos escraviza com incumbências rotineiras que só servem para ocupar mais uns quantos seres que vertem o seu sangue do mesmo modo que nós - inutilmente disperso em evidências de fim de estação. estamos já mortos por decreto e não sabemos. e vamos vivos procurar a vida onde não a temos. essas é que são as evidências que nos deviam pedir. por decreto: quando foi a última vez que fizeste algo que te fez verdadeiramente feliz?

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