como se escreve a noite sem o teu nome, meu doce amor, como se diz a vida sem ti, longe ou perto dos lábios ou do ouvido, ou do coração, como se diz a vida se não me deixares escritos na chuva, entre os prédios, nos canteiros dos caminhos, na ponta dos teus olhos, como se pode existir, travessão, pausa longa, se não existires, meu amor. e reticências. parêntesis. estou só, hoje. parte-me um frio do tronco para a nuca. dois pontos. chega-me ao fundo dos olhos e fica aí vestido de medo. ponto. não tenho a tempestade de ontem, vírgula, nem a chuva, nem sequer o vento. exclamação. quando tudo pára ficas mais distante, como se o silêncio, o da noite, fosse mais fundo, de frente para o teu. o teu. ponto de interrogação. resta-me acompanhar-te com o meu olhar, que ele te seja farol na noite que rasgas, de frente para o fundo da estrada. fico aqui no alto do silêncio, bem ao cimo, onde nos tocamos mais. aspas: na adoração da tua imagem que prefiguro ágil, reconfortante, quente e protectora. a tua imagem. exclamação. o olhar que se dá e que eu bebo com vontade de mais e mais. os nossos encontros, ponto e vírgula, são pontos de intersecção do nosso mundo, únicos e irrevogáveis no tempo cruzado dos sonhos. interrogação. parágrafo. e eu quero sonhar com os teus olhos e rebobinar, uma vez e outra a doce cadência do teu pestanejar. sem pontuação, o teu olhar tem uma fluência plena. vejo-te em ângulos em que nunca te vi. vejo expressões, vejo olhares, tantos, vírgula, e todos familiares, em pontos antigos do meu tempo, em lugares inesperados da mente, do tanto que sinto o que sinto por ti. pausa longa. parágrafo. reconstruo o puzzle a partir de uma só imagem. e encontro-te. ponto. e fico. a tua presença é o meu quinhão de céu, perto das nuvens que a noite esconde só para nós. amo-te. exclamação. interrogação. medo. sim, até já. vírgula e um travessão - para sempre.
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