a tarde alinha-se no tempo
pronta para sair em agonia
prolongando as suas pegadas no céu
recolhidas, as flores protegem o seu âmago
guardando para os beijos do sol e das borboletas
o seu pólen mais precioso.
em tardes assim o mundo louco recolhe-se
por momentos
e projecta-se a sombra maior do sonho
pelas arcadas dos prédios, pelas suas sombras
longas
e moços são os cedros e as searas de Abril
e o rosmaninho pascal - penso a nostalgia
de um campo idealizado na cidade
rosas são as noites quase quentes
carregadas de anil - sempre
lindas as estrelas semeadas nos olhos que sonham
em tardes assim, onde seria crível o sangue conter
açucenas e jasmim
meu amor, podes compor a minha estrada
basta ligares os fios e as nervuras
da palma da minha mão - a linha da vida
prestes a deter-se interrompida
para seguir depois de um interregno
até ao fim profundamente vivida
dizem as veias que o meu sangue
é solidão e cidra ácida mas é mentira
vivo todas as horas em ti, na tua possível fantasia
na tua música
bebo o que extraio do teu rosto, vindimo as tuas palavras
e bebo-lhe a suavidade como frutose que me vicia
e é tão pouco
calculo apenas a geometria
e penso que somos as rectas paralelas
que nem no infinito se encontram
e sempre se ombreiam - invertidas
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