cruzo a nossa noite como um passageiro clandestino, sentindo que sou e não sou o lugar por onde passas. imagino a cidade que tenho agora distante e vejo-me antes a percorrê-la com a sensação de encontrar alguma coisa no final da avenida. vejo-me a seguir com o olhar os eléctricos, sempre tão lestos em levar para longe os pensamentos imperfeitos, sacudidos por rugidos cadenciados, uma dor súbita que cruza o cérebro, uma ideia mais aguda e a vida a seguir vertiginosa pelos carris. olhava a noite da cidade pela vidraça de uma janela antiga na Rua da Graça e media o meu tempo pela passagem de cada eléctrico. algum havia de ser o último. nessa altura pintava quadros nas noites de sábado, a minha forma de correr as ruas até extravasar a cidade e o meu mundo. pouco depois comecei a ficar mais dentro, já quase não olhava o ruído da cidade, pouco saía, como se a noite me agredisse com a sua alegria e o seu bulício nas cores da tela. não tardou muito que deixasse o bairro. fugi. uma das minhas muitas fugas, das quais resultou o que sou. despedi-me da cidade. sei que já não vou voltar, a não ser por empréstimo, como turista de passagem ou para ir tirar o cartão de cidadão ou outra coisa qualquer. agora o meu mundo é uma parte do mundo. uma forma de morte mais lenta, sem que se passeie à noite pelas ruas, ou se encontrem gatos a miar pelos telhados. mas eu gosto. para cada idade o seu lugar. em jovem fui uma cidade. Lisboa. em criança fui uma aldeia. como adolescente fui uma vila: agora sou um bairro de uma cidade submersa à volta da capital. por isso hoje, privada de espaço para me extravasar de mim mesma, elegi o meu quarto e é dentro dele que me expando pelas memórias, pelas ilusões, pelos momentos que ainda guardo em mim acesos. e aqui se cruzam muitos caminhos, muitas avenidas e quarteirões onde te encontro sempre. como se fosses tu os meus passos e os meus olhos, o espaço futuro que hei-de ser. enfim. mesmo quando atravessas a cidade sem te poderes lembrar de mim, de um só banco onde nos tivéssemos recolhido pelos beirais à chuva. porque foi assim.
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