e no último minuto o sono agarrado pela gola, anda cá, não me leves ainda, há tanto para viver numa só noite quando enfim tudo se fecha, portas e janelas, osgas, bisosgas, bruxas e feiticeiras da minha casa para fora, assim era a minha bisavó a andar pela casa no ritual da deita, com um candeeiro de vidro na mão e o cheiro a petróleo a marcar as palavras e a delimitar o território sagrado. falo-te da resistência que nos vence de tanto querermos ver algum prodígio desenhar-nos a vida, antes de a noite nos apagar e se fechar sobre nós o entendimento. e hoje o dia foi de muito peso nas têmporas, o barulho, tanto barulho, de 15 em 15 minutos passa um comboio, atravessa a sala e cessa todos os barulhos num só rumor. as coisas que nos prendem a inúteis demandas que fazemos pelos outros, a diversidade, os filhos dos imigrantes, a integração, a interculturalidade, hoje cansei-me, cansei-me e quis apenas o silêncio de não me dizerem / pedirem / contarem / exporem / nada e de eu não ter de reflectir / expor / propor nada. vim directamente para casa com a dor de cabeça típica de meia dúzia de noites a ficar de olho aberto a passar os filmes que não vivi. às vezes parece que é a terra inteira que me pulsa nas têmporas, o ruído do mundo, todas as vias abertas e os motores que as atravessam e a quase ausência de respiração. falta-me o ar. fico sem estar numa tortuosa vivência da dor. de vez em quando. depois melhorei e pensei em ti. voltei a pensar em ti e a melhorar. abri o computador, fiz compras para a casa num supermercado online, planifiquei o dia de amanhã, o encontro coma minha orientadora, os últimos retoques de um capítulo martelado à pressa (preciso de tempo). e hoje não te escrevia antes de te ler. às vezes preciso que sejas tu a dar o mote. a minha energia esvai-se no pico descendente da semana. e o amor é esta troca simples de impressões. a quem interessa como esquartejei o dia, a quem interessa o que fizeste do teu, senão a nós, ou o signo que te rege o destino, senão a mim, ou o que sonho noite a dentro, senão a ti? e sonho, sim. ontem vivi não sei bem o quê, havia vento e conchas para apanhar numa praia em Peniche. e eu sei que eras tu. porque acordei como se tivesse acabado de ser feliz. tomo a tua noite nas minhas mãos e afago-te o sono. afago-te a dor e em óleos de fontes frescas unjo-te o cansaço, a febre e a solidão, mais o que for. porque, meu amor, eu vivo o que viveres. e esta noite há uma ternura profunda nos meus olhos, a escuridão do quarto e o brilho do ecrã a dulcificar-me o rosto enquanto te sigo pela casa, no teu deambular que é o meu, mesmo que escolha a imobilização. são bocados de amor que ficam espalhados pela noite, como as roupas apressadas que se despem no encontro dos corpos. pela casa.
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