ela permanece no escuro; distraiu-se com o dia, sem o ter vivido; arrumou o mundo de forma minuciosa, dobrou o tempo em forma de guardanapo e guardou-o dobrado numa gaveta. desfolhou alguns livros e editou caracteres num ecrã branco; nada de muito significativo, pelo menos não tão significativo como o tempo guardado na gaveta. depois a luz do dia começou a coar-se através do cortinado; era cedo para sonhar. mais tarde precisou de se ouvir; devia falar com alguém sobre estas súbitas vontades de se ouvir: algumas vezes era para saber que existia, outras para selar a distância, outras para imaginar o efeito da sua voz nos outros. gravou um poema antigo, daqueles que escreveu, quando começou a escrever-lhe porque ele lhe começou a escrever. gostava de lho enviar. selado numa caixa forrada a veludo, com um beijo em cada canto. deu-se conta de que a idade não a impedia de ser incrivelmente romântica. achou que não podia continuar a tecer vãs esperanças de ainda vir a sentir o bater do coração ao lado de outro. depois começou a pensar no que poderia fazer para se afastar da solidão. abriu o site de uma agência de viagens e marcou uma estadia na realidade, face ao mar bravio e ao vento mais atroz que o Inverno podia ter. não precisava de ir muito longe. precisava era de ir. por enquanto permaneceria no escuro. depois iria ver um filme qualquer e então dormir. gostava de escrever um poema como os de antigamente, mas já não sabia. doía-lhe o corpo todo. tinha arrumado o mundo e planetas em redor. agora só não sabia onde havia de se arrumar a si própria: se na realidade, se no sonho. deixou-se ficar a meio caminho, na penumbra do quarto. o carteiro devia estar a chegar, a meio da noite, como sempre que ele se lembrava de lhe falar.
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