o que eu digo é o que a minha cegueira não vê
e por isso o que penso de ti é o que a minha cegueira
me permite ver e assim nunca a palavra é tão polida como
o pensamento; penso muito e digo tão pouco.
houve tempos (lembras?) em que te traçava
o ímpio retrato dos meus olhos
sobre ti
hoje não penso nada que não queira pensar
tal o desejo de te idealizar como penso
que te idealizo - porque assim te penso -
e quero
olhos de lince
profundos e lindos
(escuros) como breu
morte e vida numa mesma arena
entre ti e Deus
feridas secas, salgadas e fundas
que o tempo te coseu
e eu lambi cria que foste dos meus
desvelos
e és
aquele em que quero crer e penso - único
no mundo - mais ninguém capaz de ver (tudo)
e de me ver da forma que me vês, porque
não sou com mais ninguém o que te mostro
como se na alcova íntima das palavras
soubesses decifrar-me
e eu que te penso e tresleio
decifro apenas o que os olhos da alma
de tão cansados já não vêem. quem és tu
é ainda a pergunta mais ampla
a que há muito sei responder
faltam-me pormenores: conheces um lugar,
uma paisagem representada num quadro. mas de tanto a
lembrares, poderás estar a percorrê-la e não
a reconhecerás.
é isto o que sei, mas não é tudo o que penso -
pois nenhuma palavra é tão polida como o pensamento
e esse é o relicário onde me prendes
e onde eu te prendo
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