31.5.11

relicário

o que eu digo é o que a minha cegueira não vê
e por isso o que penso de ti é o que a minha cegueira
me permite ver e assim nunca a palavra é tão polida como
o pensamento; penso muito e digo tão pouco.
houve tempos (lembras?) em que te traçava
o ímpio retrato dos meus olhos

 sobre ti

hoje não penso nada que não queira pensar
tal o desejo de te idealizar como penso
que te idealizo - porque assim te penso -
e quero

olhos de lince
profundos e lindos
(escuros) como breu

morte e vida numa mesma arena
entre ti e Deus

feridas secas, salgadas e fundas
que o tempo te coseu
e eu lambi cria que foste dos meus
desvelos

e és

aquele em que quero crer e penso - único
no mundo - mais ninguém capaz de ver (tudo)
e de me ver da forma que me vês, porque
não sou com mais ninguém o que te mostro

como se na alcova íntima das palavras
soubesses decifrar-me

e eu que te penso e tresleio
decifro apenas o que os olhos da alma

de tão cansados já não vêem. quem és tu
é ainda a pergunta mais ampla

a que há muito sei responder

faltam-me pormenores: conheces um lugar,
uma paisagem representada num quadro. mas de tanto a
lembrares, poderás estar a percorrê-la e não
a reconhecerás.

é isto o que sei, mas não é tudo o que penso -
pois nenhuma palavra é tão polida como o pensamento

e esse é o relicário onde me prendes
e onde eu te prendo

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