sexta-feira dia 13, um gato preto na janela em frente, espécie de figura de cera negra de olhos postos em mim do outro lado da rua, um sol desafiador e na minha mesa uma pilha de trabalho; sexta-feira dia treze e o mundo inteiro por arrumar, da vida de cá um silêncio abrasador, como se tivéssemos sido engolidos, nós e as marcas da nossa existência, os passos do amor; sexta-feira treze e eu tão tonta e atarantada, a divagar pela casa sem assento em nenhuma tarefa em nenhum livro ou pensamento, afinal era sexta-feira e tu não estavas, nada te ligava ao dia em que te abrira toda a minha existência e em resposta apenas um socalco elevado, cheio de silêncio e nenhuma palavra em nenhum degrau da tarde. depois percebi que era terça-feira dia treze e esperei que o sol derretesse, o gato saltasse, a pilha de papéis ardesse e a tua voz me irrompesse de dentro, de onde estás, com um timbre metálico e vozes de animais em pano de fundo, talvez grilos, talvez gatos de qualquer cor, talvez um galo tardiamente acordado e deslocado, por ser sexta-feira dia treze e a minha saudade me derruísse a vontade, triste, triste que nem a sangria que fiz a meio da tarde me sangrou a saudade, hortelã, laranja, vinho, canela, limão e romã e vodka, o sopro de Vulcano. o vento suão rondava-me, já à boca da noite, e o vínculo tão ténue, pensa tu bem. se um dia se partirem os fios e a voz nos não soar de lado nenhum, como te encontro, como respiro, como vivo as sextas-feiras dias treze e os outros dia e os outros? depois ouvi a tua voz do outro lado do rio. havia bruma e o gato preto já partira. então soube que tinha acabado a solidão. olá, amor, é tão bom saber que estás aí... estás aí, não estás? hoje se quiseres falamos toda a noite, baixinho, ao ouvido, para não chamar mais o azar e a má sorte. afinal é sexta-feira treze e eu nem sequer sou supersticiosa...
13.5.11
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