guardo para ti o tronco mais forte do meu tempo, a zona mais delicada da voz e da noite, o resguardo da minha intimidade, esse momento inevitável de nos encontrarmos a sós com o espaço singelo de não haver ninguém do nosso lado. guardo-te esse bocadinho maior de mim e ponho-te a caber dentro dele comigo. é a minha maneira de estar. com tudo o que tenho de melhor. e assim entre uma literariedade que ouso despreocupadamente e uma verdade que camuflo cuidadosamente, surgem estes bocados destacados do que sinto, quando sinto que me ouves (ou não). nestas narrativas soltas dou-me em poucas palavras na doação de uma boa fatia da minha vida, uma contabilidade que sei fazer. e guardo muito, sem poder alisar nenhum objecto, nenhuma prova da tua existência, a não ser os vislumbres das tuas palavras e expressões no enquadramento do teu rosto. guardo tudo de ti, tudo, no meio do nada que tenho, entre tanto, sendo tanto o que sei de ti quanto o que não sei. estremecida(mente) e venturosa, saúdo os teus dias futuros e o prazer da descoberta do teu olhar. e assim, o que guardares, guarda no coração, onde fica tudo mais puro e perto da voz, que (nos) há-de realçar.
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