sempre foi o caminho mais fácil, fugir à agudização das sensações, nada sentir, nem sequer o rumor do vento quando assobia pelas frestas dos olhos. ou esperas ou fazes esperar. se esperas desesperas, se não esperas desesperaste quem esperou. e depois a noite fica presa e comprometida entre uma mão estendida que quer ir, e o peso do corpo adormentado pela escuridão, corpo esse que não quer reagir. é uma injecção letal de insensibilidade. dou-a a mim própria quando me deixo ficar em lenta preparação do não-sofrimento. claro que a noite não me larga, a mão que quer ir além exprimir a solidão, ou o amor, ou o vazio, coisas sinónimas, quando se juntam; o corpo que não me permite o gesto e o retém no seu auge. não vale a pena iludir o sono e fugir. nunca vamos para muito longe, no círculo dos sonhos.
agora são sete horas e estou a ver o sol a aparecer na esquina do prédio em frente. brilha radioso num dia azul que apenas apresenta umas rápidas chicotadas nas persianas em frente. pode vir a ser uma escada (curta) para o paraíso. o paraíso tem escadarias infinitas. mas o paraíso de qualquer modo é o teu olhar a crescer para o meu. o paraíso é ficar a falar contigo, a mandar um bilhetinho dobrado em dois e receber num dos cantos uma frase de amor e voltar a mandar o bilhetinho até se esgotarem os cantos e a urgência de dizer. o sol alcançou-me. neste bocadinho de letras e de frases, o tempo passou, a terra moveu-se mais um bocadinho e a prova está aí. o sol a cobrir-me o rosto o pescoço. daqui a nada será o resto do corpo. escolhi a minha casa virada a nascente. é uma forma de renascer em cada manhã com os olhos banhados de luz. eu própria, mesmo na adversidade, sou um muro virado a nascente.
nada mudou desde ontem e antes de ontem, mas eu sou novamente um ser limpo e lustral que acabou de nascer e se veste de esperança e de luz. tudo é melhor de manhã, apesar da cor amarga do horizonte. é pena. mas tu estás aí, não estás? por que não dedicas um minuto do teu dia para nasceres comigo, mais próximo do ser original?
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