10.6.11

antes de te ver chegar

entre a música da vizinha de cima, música que é sempre a mesma, e a minha vontade de fugir de dentro de mim, antevejo uma tarde difícil, sem graça, sem poesia. luto por concertar alguma coisa cá por dentro, mas não é fácil. ando em guerra com a realidade. organizo-a para ser de novo desfeita. ordem e caos sucedem-se sem que eu possa deter a rapidez com que este último se instala. estou exausta de lutar. até a música africana que vem lá de cima me martela os sentidos como uma espécie de abominação que acentua a falta de espaço que cada vez mais sinto.  preciso de suavidade. nuvens leves e um lenço de linho a proteger-me os olhos da realidade. preciso da extensão da tua voz sobre o meu ombro, ou da piedade do teu olhar sobre o meu. só tu me reconheces e pareces seguir os escombros em que caminho. não sei se mereço a tua atenção. alguma coisa terei feito para ter uma coisa e a outra.  o caos e a tua atenção. alguma coisa me impedirá de ter mais do que caos e a tua ausência. mas também alguma coisa me estará a sustentar com energia sempre nova e estímulo que nasce a todo o instante. gostava de te amar com o resto do meu corpo, não só por dentro. é uma forma de caos o não saber nada. a inocência, sim, é uma forma de organizar a realidade, não a questionando. queria essa inocência como forma de ser feliz no meio da desordem. queria aceitar o que me dás como a dádiva maior que jamais terei na minha vida. umas linhas escritas no fundo tardio da noite. um aqui e um agora indefinidos, uma expressão vasta de um mundo vasto. tanta solidão a subir até ao cimo. e depois às vezes não tenho tempo de esperar. dobra-me a vida em dois e quebro. antes de te ver chegar.

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