o robe de chambre cor-de-cereja sobre a camisa cor-de-cereja
o cabelo cor-de-cereja e o dia que já foi de malva e agora
é amora negra e o teu olhar que é de ameixas escurecidas pelo sol
e todo tu, solene e recolhido, e eu hesitante porque não te reconheço
na nova postura sob o sol crestado e mais uma e outra noite em
parênteses vazios e a escuridão a rodear-nos, escurecendo a seda de cereja
e a malva do cabelo e o fogo a rasar mal nos forçam o dia. e é assim
que às vezes parece que há alguém a ocupar o lugar que ocupas e que esse alguém
te coincide. às vezes parece que existes com contornos conhecidos e que em tudo
que dizes te desenhas na realidade que sou. e é nesses momentos que me envolve
a brandura do peito e que eu me debruço para a tela, procurando vislumbrar a
deixis que te diz. sabes que és real. só podes ser real. não há qualquer forma
de me sublimar no vento, ou no brocado de algumas nuvens para te tocar no mesmo
véu da boca. surge por mim e toma o meu olhar de frente.
podes confundir-me, não importa, desde que sejas apenas e somente tu
a voz verdadeira que desceu à terra e se aplanou sobre mim
de pele e olhos cor de amora escura e um sabor acre de sangue mouro e alecrim.
beijinhos (tantos) para ti
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