vê-se a ocupar a noite alheia sem noção de que o mundo que constrói pode de repente não lhe pertencer. esquartinha os ângulos do pensamento, percorre as curvas lineares do discurso e sente que pode ter escolhido um lugar vazio para se sentar, com outro lugar vazio ao lado, para assistir a um filme sem legendas, nem dobragem de vozes, mas com vozes vivas de gente. descobre que pode estar a falar com uma tela, tomando-a por pano cru da vida real, onde lhe foi atribuído um papel principal exequo. a tela segue um fio de pensamento muito próprio e ela sente que muitas coisas não as entende, nem as decifra. são legendas sem texto. textos sem legendas. e se...? e se fosse apenas uma tonta que se aninha no calor alheio, colhe rosas oblíquas, acende círios invisíveis, tece preces que só o vazio repete em eco - que fazes? que fazes? que fazes? ela não sabe. mas e se...? já antes suspeitava que sim. que as rosas intactas do seu jardim são prova de que não há pegadas, nem voos, nem chilreios, nem olhos ocultos para lá do muro... e se tudo não fosse mais do que um espelho, onde se vê, dentro de si mesma, com a sua imagem dentro e dentro outra imagem sua e mais uma? o tempo trouxe-lhe uma sensação muito própria da irrealidade das coisas dentro da própria realidade. a tela que reflecte imagens, cenas e diálogos e ela na plateia a seguir um roteiro onde julga interferir. patética. já podia ter rasgado a tela, para ver o que esconde. mas não. todas as noites assiste às cenas que decorrem à margem do seu ser. veste-se e dramatiza a noite. o elenco é pequeno e sagaz. mas ela não sabe quem no elenco se desempenha a si mesmo ou se alguém do elenco sabe a importância do seu papel. para quem vê. e acredita. com um óculo de voyeur.
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