já não há poemas
há gumes e desconcertos
perdidos os laços e os berços
onde se embalava a noite e a ilusão
já não há fragas
como as antigas escarpas
onde apareciam sobre árvores
as damas-pé-de-cabra
e caçadores enamorados
já não há Euricos nem presbíteros
na nudez da redenção
o eremita agora é qualquer um
preso ao seu corpo e ao seu pão
da loucura dos velhos românticos
ficou mais saudade do que a que já tinham
de um mundo perfeito e arrumado
com sentimentos claros e profanos
e uma fé inabalável
nos homens e nos seus desígnios
dos deuses ficaram estátuas
em jardins sub-urbanos
e Cupidos passeiam solitários aos domingos
nostalgia é o mal do mundo
a inevitável distância que une tudo
aplanando o que era imperfeito
e contudo, de nós há um rasto de palavras
já passado perene e tão íntimo:
que me murmura ainda o vento
esperanças inúteis com tanto sentido?
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