no meu posto de trabalho o dia amanhece sem surpresas. o mesmo vendaval da véspera, uma temperatura amena, como se a primavera estivesse a começar e não fosse já verão pleno. na secretária os papéis espalhados constituem o puzzle que estou a montar. ainda não lhes conheço o lugar nem a forma que hão-de ocupar no desenho final. fico feliz quando encontro uma e só isso me incentiva a avançar. falta muito. podia nunca mais parar com este trabalho e teria ainda muito a dizer. não pensei que implicasse tanto. a minha investigação tem o traço positivo do meu amor pelas línguas. pela clareza das línguas. compreendê-las, descrevendo-as. e há tanto para dizer... aspiro a leveza da manhã entre dois goles de café. descubro que não tenho muito a dizer sobre mim. sou um verbo impessoal, um experienciador dativo. um verbo sem argumentos. a minha investigação descreve a minha vida. está claro que trabalho é tudo quanto terei da vida, o que me dá uma razão para continuar até a ter trabalho, até à sensação do dever cumprido. e é essa sensação de dever cumprido que me apressa a prosseguir. haverá um fim? fiquei mais só desde que perdi a confiança nos outros. caiu mais uma peça forte na minha vida. será a última. é mais prudente que cada um aprenda a depender da sua própria substância, sendo um verbo inergativo. sem transitividade. o pássaro voou. não era um canto matinal. talvez fosse uma imitação. um verbo leve. e eu não dei a alguém o que dei, na ditransitividade plena do que fui.
29.6.11
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