entram vagas de calor pelas janelas que se abrem ao mundo. o sol é uma brasa que se esconde atrás das nuvens, mas que invade incondicionalmente os lugares expostos. sou um lugar exposto. tenho à minha frente a mesma paisagem de ontem e o mesmo trabalho de ontem. nada me distancia do que era ontem. pouco mais sou do que serei amanhã. já experimentei mudar de trabalho. e de lugar. mas sou a mesma onde quer que vá. sou um lugar exposto ao sol. recuso-me a fechar as persianas a esta vaga de doçura. o lazer chama-me. o trabalho também. não é preciso mudar de lugar nem de trabalho para ser mais feliz. nem sequer sonho mudar de vida. aliás não sonho com coisa nenhuma. o mundo é um novelo de calor e eu estou exposta. é tudo. anseio pela noite para que as pedras arrefeçam e o solário se apague incondicionalmente fresco e renovado, como folhas de árvore ao relento. entretanto as nuvens concentram-se atrás daqueles prédios, para os lados do rio, em sinal de tempestade. talvez devesse chover para amenizar a tarde. talvez eu devesse deitar os papéis todos pela janela para me renovar na escrita e no pensamento. como posso saber o que resultaria se não realizar o intento? não depende de mim, nada depende. a escrita como a tempestade. nunca dependeu. de meu só tenho esta vontade que me faz querer ser maior do que posso ser, em tudo, sendo tão ínfima na tarde ardente, sem que uma só alma me suspeite o rio que se destaca, uma frescura que me leva independente.
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