estou a ouvir música e a redigir o texto do meu laborioso estudo. enquanto o faço olho o mundo em face. gosto de escrever frente a uma janela. nunca poderia escrever num quarto fechado, ainda que a escrita
seja contida e apurada, sem possibilidade de fugas. acho que haveria lugares piores no mundo, onde eu poderia estar agora. em qualquer outro lugar estaria a contragosto. aqui estou no meu mundo que controlo com o comando e com o olhar, ou com a disciplina que imponho ao pensamento. da casa escorre o tempo que é só meu, da rua irrompe apenas o céu, janelas vazias e um ou outro pássaro sem rumo aparente. do ponto em que me encontro não vejo pessoas, nem carros, apenas adivinho silêncio. as pessoas escolheram aglomerar-se nas praias que daqui quase ouço. não gosto de multidões. preciso deste meu templo. sou eremita de vocação. por isso afecta-me o ócio e a inutilidade do tempo passado em conversas inúteis, sobre a vida de gente que me é indiferente. nunca gostei de saber da vida dos outros, a não ser o que lhes adivinho escrito na fronte e que, por pudor, não me serve de registo. sou estranha nas coisas que (não digo). sou estranha nas coisas com que me identifico. morrerei só. está escrito. não me assusta esse lugar. só talvez, um pouco, a curiosiddae sobre o que nunca virei a saber do rumo que tomar o mundo. de resto, a morte é o lugar onde a nossa condição muda para o modo volátil: presente em quem nos lembrar, viva só quando alguém nos lembrar. e até isso, essa segunda morte dos não-lembrados, já não os poderá afectar. por isso hoje nada pode perturbar as minhas certezas e o privilégio que tenho em poder sentar-me no meu andar e dizer: esta é a minha janela e este o meu tempo. estou a preenchê-lo do modo que me faz mais feliz... fresca por dentro. não há muitas pessoas que tenham querido partilhar os meus momentos tal como são. e eu, que já quis partilhar o mundo de outras pessoas, acho que sou mais feliz assim. nunca me faltará o chão. e se outros há que não querem partilhar a minha vida, que me resta fazer senão compreender e seguir caminho, devagar, colhendo pequenas certezas, pequenas felicidades, pequenos momentos de prazer? sou como um jardineiro. nunca o jardim lhe dá descanso. há sempre mais para fazer. e enquanto faz, o tempo não lhe pesa sobre o dorso, apenas a satisfação do que vê crescer.
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