não sei bem quando, nem como, já nem sequer me lembro porquê, às vezes perde o sentido, outras parece um lugar de culto onde nunca entrei, na maioria dos casos é um confessionário sem portas, quase sempre uma forma de falar com alguém. escrevo porque comecei a escrever e descobri que alguém me entendia. desse entendimento saiu um fundo de palavras e experiências conjuntas. enamoramento. depois foi mais do que isso. aproximação, com o vidro de permeio. não tardou fosse obsessão. com períodos intermitentes de distância e proximidade foi rotina e foi centelha. hoje é um lugar situado entre a memória e os sentidos. a voz sem volume alvitra o que se sente e esconde ou revela em enigmas o que não se pode, ou não se quer dizer. depois de todo este tempo, escrevo-lhe quando me (des)crevo e descrevo-me ao escrever-lhe. respiro quando escrevo do mesmo modo que sufoco ao escrever-lhe. as suas cartas encantam-me, ou decepcionam-me, ou intrigam-me, ou ainda, comovem-me. por elas perco noites tardias o rumo ao sono. espero até ao limite porque sei que é até ao limite que as palavras se esgotam e renovam. impessoais e nominativas externalizam a esperança absurda de viver um velho sonho que parece a todo o instante renascer. re-nas-cer. é tudo o que tenho na minha vida íntima, a mais delicada e frágil, a que mais ninguém - mais ninguém - é convidado a ver.
escrevo na pessoa distante para objectivar o sujeito. para que de longe e à distância haja um recorte exacto do teatro de sombras. podes entrar. é comigo e é aqui. mas entra, não fiques aí. surpreendeste-me a falar sozinha. a falar de nós: de mim e de ti.
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