hoje foi dia de não fazer verdadeiramente nada que prestasse. um vestido leve a esvoaçar na brisa e andei por aí, para cá e para lá, num desperdício de tempo. pintei o cabelo. fiz coisas de mulher, unhas, pés, meia-perna,axilas, virilhas, li aquelas revistas sobre o mundo dos ricos e famosos e fiquei perplexa por desconhecer tanta gente. a minha extravagância pareceu-me de súbito ridícula face ao nível de luxuosidade dos que parecem ter vencido na vida. não os invejei, nem desejei ser um deles. devem ter feito alguma coisa de muito bom para ter tido sucesso. ou devem ter trabalhado muito, com muito afinco. como eu. mas, quanto a mim, quem me conhece? quem já ouviu o meu nome fosse onde fosse? a minha escola recebeu um prémio, mas quem se lembra de quem organizou e montou tudo? nem sequer o meu nome lá figura. e foram horas que retirei à minha própria vida. saí de cabelo em fogo, liso e alinhado, mas já não tinha a mesma leveza da manhã. decidi não fazer mais nada. começar a livrar-me de-va-ga-ri-nho de trabalho extra, inglório, não remunerado, não reconhecido. fui lavar o carro, como sempre faço quando me quero sentir livre e descarregar tensões. voltei. não fiz o jantar, não arrumei a casa, não passei a ferro, não abri o mail, não cumpri obrigações. por um dia. amanhã volto novamente à minha existência sem história e talvez até consiga encontrar de novo o meu orgulho interior.
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