
tanto silêncio e tão antigo
liso o lago no estuário
do tempo original do mundo
as pedras do rio que colho
únicas no seu corpo morto
rolam e recolhem-se de novo
levadas como eu sem rumo
eu sou aquele barco
que já não abraça o mar
trago uma poesia armada
de palavras vulneráveis
velas vencidas ainda se lançam
na luz da madrugada
e cedem a nenhum vento
cheias e esvaziadas
diz-me, era teia no soalho
e o soalho era silêncio
ou outro material
de rápido desgaste
viriam gaivotas e aves outras
inquietas com o vazio
que agora ouço
mas a casa serenou
e o tempo foi-se
diz-me, havia um barco,
que ficou de nos chegar
era alimento e sustento
do sonho de te encontrar
agora recolho as pedras
são únicas, desiguais,
frescas na pele, não são
de arremessar
nelas pulsa ainda o silêncio
do sonho de te sonhar
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