5.8.18

Noite andaluz


A esta hora seria noite
Uma pedra aquecida pelo sol
E haveria talvez flamenco
E beirais de terracota
Inclinados para o tempo

No escuro esse touro
Que arremessa tudo e passa
Os touros cortam a noite
Quando a brisa é uma fornalha

Passos viriam apressados
E com a esquina francamente opaca
Fugiríamos para a luz
Uma bola de fogo na pele
E a vida um vidro quebrado
De quem perde na noite a alma

E eu serviria sorrisos e tâmaras
Não haveria ninguém
Apenas uma multidão de flores
Com seu perfume adocicado

Um pássaro e a escuridão
Coisas feridas
Como uma faca afiada
E um voo para o outro lado
Flamenco ou fado, vozes de iodo
Com sapatos aparados

Para não morrer na noite
Essa rainha ibérica emplumada
Para sobreviver não faria nada
Nas águas apenas talvez o lustro,
De um amor encantado -
olhamos os mesmos passos
que desferem golpes
Nas pedras aquecidas do asfalto

Ver-te filtrar a noite,
desassombradamente
Como se eu não fosse nada
Ver-te decantar o silêncio
E eu ser apenas a guitarra

Seria uma noite andaluz
Com brumas e cigarras
E uma cigana morena
A encenar, talvez, a sua alma






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