23.9.18

A renúncia


Há uma sombra na muralha
Esteiras no chão e vultos alvos
No ângulo de luz que quebra as ameias
E ardem aves no terreiro pela calma

As laudas das ímpias celebrações
Ainda se ouvem dos pagãos
Tudo era possível, agora não

Somos assim e sempre fomos
Seres outonais num deserto de luz
Com diásporas antigas na memória

Das profecias dos cristãos
Conhecemos a erosão dos corpos
Numa jarra de flores em água
Tão benta que andou de mão em mão

A renúncia é o substantivo maior
Porque somos firmes de raízes
E sabemos que tudo que se faça 
No amor, pode ser em vão

Sabemos, porque já fomos e sabemos

Das esteiras onde repousam os corpos
Do vento nas artérias e seteiras
Do corpo de Jezebel feito em bocados
Comidos pela raiva que os homens
tinham à rainha feiticeira

Renunciamos porque as muralhas
De tão antigas nos ferem os olhos
Mas somos livres de fazer da renúncia
Um florido diapasão - ouve-se daqui

Dentro o cântico decorre, são léguas
De vozes em secreta contrição
Não provarás o mal na polpa da maçã
Mas sentirás o corpo do amor
Numa cela sombria e numa esteira
Pelo chão

E então, não vamos ao amor,
Porque já estivemos no lugar do impossível,
Onde algum amante deixou escrito
Como no cabo onde morriam as naus -
O amor rasa o vazio  - e sabemos que não podemos ir,
porque tudo em nós resiste
O amor ali tão perto e a indiferença como
Nota {tão} triste.


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