20.9.18

Sou o verbo que me faz


Não importa que a chuva tarde
Quando tudo já tardou

Basta o silêncio gemer
O que a chuva quis dizer
Ah, não me importam as águas do outono
Nem as poças cristalinas que assinam
Os teus olhos
As
Que assinam nos teus olhos
A distância a manter

É o verbo que me faz
E é o inverno que me leva
Mas sem ti eu vou também

Era melhor o caminho
Onde as pedras se assentassem
Onde os penhascos se esquecem
Do seu altaneiro ser

Mas sem ti também sei ir
Pelo mundo azul do sol
Por ti sou ramo e sou raíz
Por ti sou a que, frágil,
Se mostra e tanto se diz

Mas só longe é que queres ser

Quando te vi, noutra vida
Sempre te vi noutra vida
Mas sonhava o que não via
Via só o que sonhava

Como posso agora andar
Se o caminho não é meu
Neste estação sem paragem
Perto do fim do meu verão
E a paisagem não morreu

E agora o outro que és
Perturba todo o meu ser
Podes ter achado o sol
Ou a lua onde viver
Mas eu sem ti também vou
Onde a terra me faz ir

Não te posso é envolver
Sou aquela super-nova
Que ainda emite luz
Sem saber que já morreu

Mas olha, podes olhar
O que sobra do que foi
Todos os dias te abraço
Ao escutar a voz do amor

Sente a quadra, bebe a rima
Só o teu sangue cigano
Me sopra a voz sibilina
Só o sabor do teu peito

Adoça o verso imperfeito


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