16.9.18

No reino de Atziluth


Deixa-me hoje, hoje apenas, abolir circunstancialmente o tempo, 
mas só por dentro,
sem sentenças na pele, feitas de sal
e cimento

Quero iluminar os fotões que dantes te ardiam, incandescentes, na memória do amor, talvez
esquecer o lugar que somos e vestir o nosso ser celestial - riscar qualquer tentativa de procrastinar seja o que for

Sabemos que a pele escreveu a sal narrativas longas
e a riso as breves, que nunca se demoram sobre nós, que as sonhámos, mas isso não importa

Os sulcos são recortes do vazio, vozes que falam de nós como meninos quando tudo era a lisura do não saber, por isso ilumina-as,
enche cada ruga com o semblante mais feliz desse mundo ideal  - onde está por escrever a tua melhor história  

Um rosto é um caminho para o coração. Pensa no teu, onde a idade se esconde e a eternidade se oculta, dulcifica o que puderes em teu redor

A idade é uma rosa arrancada do peito de alguém e eu não a colho, prefiro o intemporal, ou o devir,
ou mesmo a morte nesse lugar nevoeiro que percorremos perto, sempre com seiva, porque o despojo do tempo é a tua iniciática forma de seres mais além, com sangue e sustento

Gostaria de ter a chave de Chronos para abrir o jardim inicial, o reino de Atziluth, onde vivem as coisas originais, as almas irmãs que se sabem ouvir. Assim, a idade dos seres, como a das árvores, era a medida exata dos abraços a receber.


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