11.11.18

A chuva dentro



Por vezes a chuva vinha
Já tarde, sem avisar
Impossível ser mais lisa
A suave sensação
Do teu abraço a chegar

O rosto em água
na janela, era já o teu olhar
E as mãos incertas quase se moviam
numa mesma chuva,
um mesmo fio, como quem
Está a chorar

Então chamava-te para dentro
Lá fora toda a água te levava
Como fragmentos de outono
Em folhas na calçada

Era sempre dentro de nós a chuva
Palavras macias frescas de rubor
E aquele silêncio sepultado
No murmúrio de águas e de flores

Levados para longe e nunca regressados
Cristalinos na chuva e dela parte
Fazíamos da chuva o nosso tempo
Pla cadência simples no telhado

Chove no coração dos homens
Como se num invisível nó cego
Fossem primevos e sem teto
Mas em nós é uma luz suave
E a chuva apenas eco

E hoje, que ouço o que já foi,
À cidade, sem rumo, descerei
Serei na serra apenas um regato
Que secará à vista do deserto

Mas, meu amor, deixa chover
É assim que, por mais tempo, 
Sem te ter te tenho perto

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