A mesa está posta com a fruta da estação e há pão fresco no forno do quintal. Podes respirar verdade se vieres como quando começaste a respirar no ato de nascer. Vem com a pureza lustral do teu ser inicial, mas vem ver o lume que o vento tantas vezes me apagou.
Podes vir que o vinho já fermenta nos meus olhos o que resta da ilusão. E entra que a casa é maior do que qualquer lugar porque é feita de amor e sabe a limão fresco acabado de sangrar.
Podes entrar, nada mudou na disposição
em que nos deixaste, o lume a crepitar no fogão onde as pinhas largam o seu último odor e o calor faz o coração maior.
Lá fora chove sempre, quando o céu se rasga como papel amolecido ou quando a ausência escorre por dentro e se verte nas lajes do chão, sabendo eu qie contigo a chuva aquece e não há lugares sem gente ao lado do fogão.
A casa respira a cor da tinta nova, a vida brilha, se vieres conhecerás o prazer das sombras nas paredes, na dança das chamas, e serás pequeno novamente, de coração apertado e quente.
Entra, mas depressa que lá fora a noite declina e nós já perdemos tudo o que podíamos perder, já não temos o tempo, nem o espaço num universo tão vasto que eu diria que, tarde ou cedo, velhos cometas, havemos de nos tocar.
Às vezes só a casa permanece como o segredo desta vasta região que te dou no meu ser. Podes vir, larga o pó, deixa a rua descansar, cá dentro o infinito preenche todos os gestos, todas as palavras e rituais mais antigos
que (me) sabes dar, na tua voz mais delicada, no teu murmúrio mais suave vindo das águas dos rios, nas velhas margens onde julgámos viver
ou de dentro, das memórias plantadas antes do teto nos quebrar. Podes adormecer a casa. São
só paredes e traves num chão sempre por abrir mas é serena e sóbria a sua luz, sempre vasta a região que ocupas no meu ser.
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