É noite. É sempre noite dentro dos meus olhos
Muitas vezes de manhã a noite colada à pele e a luz a lavar os sonhos
E os sonhos escuros presos à memória
Em fuga à razão mas fundos
Como águas mortas
Às vezes habito-me por fora
Sem me ver claramente dentro
É sempre noite no que vejo
A realidade limita-se a estar
Para eu viver lá dentro
Um aquário com a dimensão das horas
De um dia inteiro
Movo-me, conduzo-me no labirinto dos outros,
Mas vou cega, não tenho os bolsos recheados de razões
Só quero passar
No sentido oposto, para me apagar no olhar de todos
Desculpem se a noite está dentro dos meus olhos, mas foi o tempo que me enganou
Quando não soube chegar
É tarde para o inverso, porque o inverno caiu, sangrou o sangue e a vida
E, assim, apenas vou
Sem um verbo a conjugar, desapaixonadamente, porque é essa
A casa que sou
Para não tropeçar nas sílabas
De palavras
De palavras
Como a-mor e es-pe-ra e es-pe-ra-an-ça
Abro os olhos para a noite
E expiro o fumo do passado
Não há ninguém que olhe o fundo da noite sem cair
Esmero-me na não existência e no despojo.
Sou apaixonadamente tudo menos eu
E às vezes assim dou tudo o que não sou
Espero pouco, para ter alguma coisa
Espero pouco, para ter alguma coisa
Só não me peçam que afaste a noite
Com suas sedas e segredos
Com suas sedas e segredos
Sou apenas eu a olhar de frente
O vazio que me sobrou
O vazio que me sobrou
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