16.11.18

Retrato



É noite. É sempre noite dentro dos meus olhos
Muitas vezes de manhã a noite colada à pele e a luz a lavar os sonhos
E os sonhos escuros presos à memória
Em fuga à razão mas fundos 
Como águas mortas

Às vezes habito-me por fora
Sem me ver claramente dentro
É sempre noite no que vejo

A realidade limita-se a estar
Para eu viver lá dentro 
Um aquário com a dimensão das horas
De um dia inteiro

Movo-me, conduzo-me no labirinto dos outros,
Mas vou cega, não tenho os bolsos recheados de razões
Só quero passar 
No sentido oposto, para me apagar no olhar de todos

Desculpem se a noite está dentro dos meus olhos, mas foi o tempo que me enganou
Quando não soube chegar

É tarde para o inverso, porque o inverno caiu, sangrou o sangue e a vida
E, assim, apenas vou
Sem um verbo a conjugar,  desapaixonadamente, porque é essa
A casa que sou

Para não tropeçar nas sílabas
De palavras 
Como a-mor e es-pe-ra e es-pe-ra-an-ça
Abro os olhos para a noite
E expiro o fumo do passado 

Não há ninguém que olhe o fundo da noite sem cair 

Esmero-me na não existência e no despojo.
Sou apaixonadamente tudo menos eu 
E às vezes assim dou tudo o que não sou
Espero pouco, para ter alguma coisa

Só não me peçam que afaste a noite
Com suas sedas e segredos
Sou apenas eu a olhar de frente
O vazio que me sobrou






  




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