26.11.18
metalinguagem
entre nós e as palavras - o hiato da fala
tudo que se escreve não tem entoação
como a corola das flores plena de pólen
embora os sinais semeiem sentimentos
tudo o que se escreve jamais voa
como a ave libertada ao pôr do sol
tudo o que se escreve não tem lábios
nem cora por dentro como a madrugada
ao quebrar a escuridão
não, tudo o que escrevo é um rasto de instantes
inércia da mão sem saber parar
uma entropia dos lábios que não podem dizer
e nesse derrame de emoção me deixo escoar
sempre para dentro, até ter um enfarte de solidão
ou síndrome de rejeição à consciência de mim
amigo, as palavras são assim. um sms de dor
um outro de ilusão, um aceno, uma combustão
talvez, enfim, uma afasia dos sentidos
a última visão de quem não fui, tendo sido
(...)
poesia na manhã, neurose, neurastenia
musa, disfunção, febre e euforia
agora metalinguagem apenas e semiótica:
pois não há signos que signifiquem amor
e a palavra está presa nos sentidos
e eu digo: as sílabas entre nós já foram líquidas:
e os sons silenciados, as árvores, muros e avenidas
terá sido quando? não sei. também não importa.
não escrevo para me ler, nem para ser lida
lanço um feitiço à esperança
para que não me perssiga
compelida
escondida
vida
ida
.
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