verde a manhã de inverno
cinza sobre a terra e um céu pequeno
onde não cabe o presente
há uma imobilidade nas coisas
apenas por fora
quando tudo se encerra em si
na germinação da semente
em silêncio na escuridão da terra
ser domingo é irrelevante
o mundo está dentro
de um casulo de silêncio
se escutarmos por dentro
ouve-se o crescimento expansivo
da semente semeada e da flor que vai abrir
é domingo e os caminhos fazem-se com tempo
na contemporização do ser com a natureza
na afinação do coração com as ruas da cidade
a interioridade floresce e rasga mundos
expande-se em raiz no corpo todo
os gatos afluem ao pensamento
e dormem-nos por dentro, mudos
memórias fundas descem no silêncio
e trazem casas e sons onde vivemos
podemos regressar a outras vidas
outros venenos
em que mergulhou a existência
tudo em suspenso, existimos outros
onde o céu também esteve denso
no coração de um silêncio de inverno
interno e tenso
vagamente nos lembramos
de não haver nada
não se ouvir nada
não sentirmos nada
senão, compulsivamente,
o velho silêncio
da casa perdida
talvez hoje, talvez naquela vida
quem fomos que nos arrebatamos
assim para dentro
e nos imprimimos a verde e cinza
nos sudários que não fomos
quando qualquer palavra a mais soa
no mundo, quando vamos e vemos
que na ideia abstrata do inverno
todo, todos, os de sempre,
mesmo os que nunca fomos,
vive o inverno de hoje, um "fait-divers"
sem qualquer substância poética,
apenas raiz que nos mergulha
na escuridão do ser que somos
dorme, coração, é inverno,
dizemos...
e trazem casas e sons onde vivemos
podemos regressar a outras vidas
outros venenos
em que mergulhou a existência
tudo em suspenso, existimos outros
onde o céu também esteve denso
no coração de um silêncio de inverno
interno e tenso
vagamente nos lembramos
de não haver nada
não se ouvir nada
não sentirmos nada
senão, compulsivamente,
o velho silêncio
da casa perdida
talvez hoje, talvez naquela vida
quem fomos que nos arrebatamos
assim para dentro
e nos imprimimos a verde e cinza
nos sudários que não fomos
quando qualquer palavra a mais soa
no mundo, quando vamos e vemos
que na ideia abstrata do inverno
todo, todos, os de sempre,
mesmo os que nunca fomos,
vive o inverno de hoje, um "fait-divers"
sem qualquer substância poética,
apenas raiz que nos mergulha
na escuridão do ser que somos
dorme, coração, é inverno,
dizemos...
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