6.12.18

Tinta e Dor


É preciso, hoje como antes
Cobrir intensamente o branco
Sem sobrar um sopro só
Sem parar para dizer

Tapar o tempo e o passado
Rasgar a tela até doer

Quero que as paisagens gritem
Com todas as feridas ocultas

Por todos os poros tapados,
Explode a tinta do meu ser
O branco é a dor maior
Falta um selo nesta tela
E falta um rosto também

Faço telas, teço temas e tapetes
Dobro e desdobro os meus enfeites
Para empatar o tempo
Para enganar os deuses
Com os enredos que tenho
Pinto o que me faz viver

São estímulos distais
Moram nos traços de cor
Nada mudam no meu ser
Mergulhado em tinta e dor

Por vezes a imensidão das flores
Um risco negro e um grito azul
Uma árvore murmura
O que não quero ouvir

Então, algumas palavras atravessam
Rapidamente as cores
A tela fica rubra e explode
Com a figuração do amor

É preciso cobrir tudo de cinza
O rosto na tela, traços de carvão
Tudo que quero esquecer,
Quem será, quem pode ser?


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